Jose Benedito
Contos, Crônicas e Artigos
Textos

Voltar pra casa não dá mais 

Eu era um ajudante de pintor naquela época de adolescente e que precisava ganhar algum dinheiro para ajudar em casa nas despesas, afinal eu era um dos filhos mais velhos que moravam com nossa mãe. Eu lembro que o nosso pintor chefe, certa vez foi contratado para fazer todo o trabalho de pintura e restauração do prédio de um "Asilo" que ficava em um lugar mais alto da cidade, localizado bem perto da rodovia de acesso a Cidade e próximo a "Santa Casa" e que era mantido o seu funcionamento pela Assistência Social Mariana da Igreja e com alguns recursos da Prefeitura do Município. Eu lembro ainda que trabalhei ali naquele lugar uns dois meses seguidos. Uma senhora era a zeladora e também cozinheira daquele "Asilo" e de início me falou que eu poderia tomar o café da manhã e almoçar ali mesmo na cozinha do "Asilo" junto com os idosos se eu não me importasse. Claro que não me importei e me senti muito bem convivendo diariamente com os idosos e idosas. Este foi o meu primeiro contato de convivência diária com idosos carentes e abandonados em sua maioria pobres que ali estavam abrigados e pude ali mesmo ouvir diariamente as suas histórias de vida verdadeiras e os mais diversos motivos pelos quais eles estavam ali abrigados. No entanto, para alguns o entardecer com o por do sol lá longe e o anoitecer  é o pior momento pra eles. Já existe alguns diagnósticos formados por especialistas da área que prevê a "síndrome do pôr do sol" como um distúrbio comportamental que afeta idosos, principalmente aqueles que já estão apresentando um certo grau de demência que alguns chamariam de "caduquice". E este também é um dos motivos que levam o idoso a ser internado em um asilo. Segundo os profissionais  essa síndrome se caracteriza por um aumento da confusão e agitação que começa no final da tarde, no entardecer e continua durante a noite. Fato é que certo idoso manifestava que durante o dia, tudo é mais claro, mais alegre, a paisagem e o verde visto lá do alto daquela grande área em frente ao "Asilo", isso quando não liga a "teve" de tubo, o radinho de pilha e escuta música sertaneja e, assim, ocupa a cabeça, e parecendo que sempre tem gente por perto conversando com a gente. Mas, de noite é tudo diferente, fica tudo apagado, quando não apenas uma luz mais fraca clareando o enorme corredor daquele prédio e todos ali trancados em seus quartos até o dia seguinte parecendo como se ali fossem certos prisioneiros e tendo que observar e obedecer as normas e regras de condutas daquele lugar. É claro, que é necessário ter as regras e normas, tem que ter horário pra dormir assim como ter horário pra acordar, tem que ter os dias certos e os horários de visitas, o horário de tomar café, de fazer a higiene pessoal, arrumar camas, organizar os dormitórios e mais tarde participar de alguma atividade ali no "Asilo", ou quando não as idas ao médico. Era um fim de ano precisamente uma tarde de véspera de Natal e todos esperavam que Ela fosse a Missa às 18 horas. Isso era uma tradição popular de ir à Missa em datas comemorativas principalmente no Natal. O condomínio em que morava estava todo enfeitado com arvores de Natal. Mostrando que o clima de Natal chegou. No entanto Ela não apareceu a Missa. Ela mudou. Ela não mais morava no condomínio. Agora havia mudado para um "Lar de Idosos" aqui mesmo no bairro e voltar para o seu apartamento não dá mais.

Benedito José Rodrigues
Enviado por Benedito José Rodrigues em 11/02/2025
Alterado em 14/02/2025
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