Eu tinha sete anos e cinco meses de idade e já tinha iniciado a primeira série do ensino primário no Grupo Escolar Avamor Berlanga Mugnai que estava localizado no Bairro do Jardim Marajá no Município de Pacaembu SP. Pouca coisa eu lembro daquela madrugada do dia 31 de março de 1964, os rádios de pilha anunciavam insistentemente que um golpe militar foi deflagrado contra o governo legalmente constituído de João Goulart. O rádio a pilha lá de casa, provavelmente um "Rádio ABC a voz de ouro, noticiava sem parar os fatos políticos sempre através do "Repórter ESSO" isto até abril de 1964. No meu grupo escolar, professores, diretores e funcionários comentavam sobre os fatos daquela manhã daquele dia. Alguém citava que era o início de uma guerra. Outros comentavam que o "comunismo" estava invadindo o Brasil.A falta de reação do governo e dos grupos que lhe davam apoio foi notável. Não se conseguiu articular os militares legalistas. Também fracassou uma greve geral proposta pelo Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) em apoio ao governo. João Goulart, em busca de segurança, viajou no dia 1o de abril do Rio, para Brasília, e em seguida para Porto Alegre, onde Leonel Brizola tentava organizar a resistência com apoio de oficiais legalistas, a exemplo do que ocorrera em 1961. Apesar da insistência de Brizola, Jango desistiu de um confronto militar com os golpistas e seguiu para o exílio no Uruguai, de onde só retornaria ao Brasil para ser sepultado, em 1976. Antes mesmo de Jango deixar o país, o presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, já havia declarado vaga a presidência da República. O presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli, assumiu interinamente a presidência, conforme previsto na Constituição de 1946, e como já ocorrera em 1961, após a renúncia de Jânio Quadros. O poder real, no entanto, encontrava-se em mãos militares. No dia 2 de abril, foi organizado o autodenominado "Comando Supremo da Revolução", composto por três membros: o brigadeiro Francisco de Assis Correia de Melo (Aeronáutica), o vice-almirante Augusto Rademaker (Marinha) e o general Artur da Costa e Silva, representante do Exército e homem-forte do triunvirato. Essa junta permaneceria no poder por duas semanas.