Há quem diga que o ser humano é teimoso por natureza e que não aprende com as lições da vida, nem com as situações difíceis em que tantas vezes se encontra. A verdade é que ainda não assimilamos os ensinamentos deixados por nossas bisavós, avós e pais. E agora, nós mesmos caminhamos por este mundo repetindo seus erros. E erramos muito. Teimamos em errar. Assim seguimos, tropeçando, até quando - não sei dizer. Isso é fato. Toleramos os erros alheios, mas não suportamos os nossos. Compreendemos as falhas e os fracassos dos outros, mas não perdoamos os próprios. Somos especialistas em autopunição e em reclamar de tudo e de todos que, porventura, estejam em situação melhor que a nossa. Foi assim com o Zé e sua família, que viveram a vida inteira na roça. Aquele chão seco, antes fértil, já não oferecia sustento. Faltava chuva, faltava água. O sol castigava a terra, e a fome passou a rondar. Sem alternativa, o pai, a mãe e os três filhos juntaram o pouco que possuíam se é que ainda possuíam alguma coisa: uma trouxa de roupas, os documentos, alguns pertences e a esperança e partiram rumo à cidade grande: São Paulo. A viagem foi longa e cheia de incertezas. Primeiro, caminharam até o ponto onde passava o "pau de arara" que os levaria à rodoviária da cidadezinha mais próxima. De lá, embarcaram em um ônibus. No ônibus apertado, os filhos perguntaram: Pai, pra onde a gente tá indo? Sem querer admitir que não sabia, ele sorria para as crianças e respondia: - A gente vai pro lugar que Deus escolher pra gente. Depois de dois dias e meio de viagem, finalmente desembarcaram no Terminal Rodoviário do Tietê, em São Paulo. Ao pisarem no chão firme do Terminal do Tietê, o barulho da cidade grande parecia engolir as palavras. Era gente passando apressada, malas rolando, anúncios ecoando pelos alto-falantes. Para uma família acostumada ao silêncio da roça, aquilo tudo era quase um outro mundo. A mãe segurava forte a mão dos filhos, com medo de perdê-los naquela multidão. O pai, embora cansado, mantinha o olhar firme. Precisava mostrar segurança, mesmo sem tê-la. Olhou ao redor procurando algum rosto conhecido -ilusão de viajante que chega pela primeira vez num lugar imenso. Não havia ninguém. Apenas a cidade, enorme e indiferente, encarando-os de volta. Com o endereço de um primo distante anotado num papel. amassado, seguiram em direção ao ponto de ônibus Indicado por um funcionário da rodoviária. Era preciso atravessar ruas, avenidas e calçadas cheias de gente que parecia saber exatamente para onde iam. Eles não. Mas caminhavam assim mesmo, guiados apenas pela necessidade. Quando o ônibus finalmente chegou, subiram devagar. Os meninos encostaram o rosto na janela, maravilhados e assustados com os prédios altos, tão diferentes das árvores que costumavam ver. - Pai, olha o tamanho disso! - disse o mais novo, apontando para um arranha-céu que parecia tocar o céu. O pai sorriu, mas no fundo carregava um aperto no peito. Sabia que aquele lugar grande podia dar tudo... ou nada. Ali, ninguém conhecia o Zé. Ninguém sabia da sua luta, da terra que secou, da colheita perdida, do esforço pra criar três filhos com dignidade. Naquele momento, ele era apenas mais um, como tantos outros que a vida empurrara rumo à cidade. Ao chegarem ao bairro indicado, desceram em frente a uma viela estreita. Casas simples, construídas uma colada na outra, disputavam espaço com pequenos bares e comércio improvisado. O primo morava nos fundos de um terreno compartilhado, abraçado por paredes de tijolos expostos. Recebeu-os com surpresa, mas com a generosidade típica de quem também já tinha vindo de longe tentando recomeçar. Não reparem a bagunça primo, abrindo passagem para que entrassem. Aqui é apertado, mas a gente sempre dá um jeito. E ali, naquele quarto pequeno de piso frio e paredes descascadas, caberia toda a esperança de uma família inteira. Não era muito, mas era o que tinham. Era o ponto de partida. Naquela noite, enquanto as crianças dormiam juntas num colchão fino, os pais conversaram baixinho. Planejavam arrumar trabalho, qualquer trabalho. O futuro era incerto, mas a vontade de recomeçar era maior do que o medo. A cidade, enorme do lado de fora, parecia observar em silêncio. E, pela primeira vez desde que partiram da roça, Zé fechou os olhos acreditando que, talvez, ali pudesse ser o lugar que Deus escolhera para eles.