Jose Benedito Rodrigues
Contos, Crônicas
Textos

              O Movimento que mudou a historia

 

               Eu caminhava pelas ruas de São Paulo observando tudo com um misto de curiosidade e medo. Sim, medo da Cidade Grande. Para quem vinha do interior, aquilo era quase outro planeta desconhecido. Os prédios pareciam tocar o céu, os ônibus passavam lotados num vaivém sem fim, as filas eram enormes e, mesmo assim, cada pessoa parecia saber exatamente aonde estava indo. Menos eu. O país estava mudando, mesmo que devagar. Os jornais da época estampavam manchetes sobre inflação, sobre o dólar que não parava de subir, sobre as greves no ABC e sobre as multidões exigindo liberdade. Os sindicatos ganhavam força novamente, e as universidades voltavam a respirar algum ar de debate político. Nas rodoviárias, bares e fabricas, o assunto era o mesmo. “Será que agora vai”? Eu encontrava trabalho onde dava. A cidade não esperava ninguém. Acordava cedo, antes do sol, e voltava tarde, sempre cansado, mas carregando comigo a sensação de estar vivendo algo maior do que eu. Era como se estivéssemos as portas de um tempo novo, mas sem saber, o que viria depois. Nas noites quentes de verão, a televisão mostravas imagens de comícios gigantescos. Gente amontoadas nos estádios, nas praças, nas avenidas. Eu assistia admirado em uma televisão preto em branco doada por um primo. Era impossível não sentir o coração acelerado ao ver o Dr. Ulysses levantando a Constituição nas mãos, ou Brizola discursando com a força de um trovão, ou Lula ascendendo como representante de um novo tipo de trabalhador, o trabalhador urbano, industrializado, consciente. Ali estava o Brasil dividido entre o medo e a coragem. No ônibus, as vezes alguém puxava conversa: - Você é de onde, rapaz? – Do interior – eu respondia. – Igual muita gente. Parece que São Paulo virou abrigo de quem o campo não segurava mais. E era verdade. Cada rosto carregava uma história parecida: seca, dificuldade, terra pouca, dividas em bancos e esperança muita aqui na Cidade Grande. Gente que vinha tentar a vida com as mãos vazias e o peito cheio e todo um passado deixado para trás sem volta. A cidade era dura, mas também acolhia. Nos bairros afastados, os novos moradores erguiam suas casas de madeira, tijolos e esperança. A noite, o cheiro de comida simples se espalhavam pelas vielas: arroz, feijão preto, café forte. As crianças brincavam nas ruas. As mães sentavam nas portas conversando. Os homens chegavam suados do trabalho e riam das pequenas coisas. Era pouco, mas era vida. Enquanto isso, o clima politico continuava fervendo. A emenda Dante de Oliveira se aproximava, e a expectativa crescia. As rádios falavam, os jornais comentavam, e nas fabricas o assunto era só um: voltar a votar para presidente. Eu olhava para tudo isso e pensava: “É aqui que minha história de vida recomeça. É aqui que Deus quis que eu estivesse.” E, sem perceber, aquele país convulsionado, desigual, barulhento e esperançoso começava a fazer parte de mim. A cidade grande moldava meu olhar, meus passos, meu futuro. E eu seguia, um dia de cada vez, como tantos brasileiros paulistanos anônimos que ajudaram a construir, tijolo por tijolo, a história daquele tempo.

 

 

Benedito José Rodrigues
Enviado por Benedito José Rodrigues em 05/12/2025
Alterado em 05/12/2025
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