Jose Benedito Rodrigues
Contos, Crônicas
Textos

          Jardim Marajá

 

                                   Foi somente algum tempo depois, já acostumado ao ritmo apressado das grandes cidades, que comecei a entender como tudo aquilo – ditadura, migração, conflitos agrários, sonhos interrompidos – empurrava as pessoas para novos começos. E foi desse movimento que nasceram muitos bairros, loteamentos e comunidades inteiras espalhadas pelo interior paulista. Entre eles, um nome começou a ganhar significado especial para mim: Jardim Marajá. As primeiras vezes que ouvi falar daquele pedaço de terra foram em conversas sussurradas nas mesas de cozinha, misturadas ao cheiro de café forte passado na hora. Gente que como eu, tinha saído do interior, comentava que havia um loteamento novo surgindo, ainda sem rua asfaltada, sem iluminação, sem água encanada. Um lugar barato, acessível a trabalhadores que ganhavam pouco, mas sonhavam muito. Falavam de maneira curiosa, quase com brilho nos olhos- “Lá vai ser bom...daqui uns anos cresce.” - “É mato ainda, mas dá para construir.” - “É o que o dinheiro alcança.” E eu ouvia aquilo com atenção, porque aquelas conversas pareciam descrever exatamente a trajetória de nossa gente começar do nada, levantar casa com as próprias mãos, enfrentar barro, lama, poeira, promessas que demoravam, mas um dia chegavam, foi assim que o nome Jardim Marajá começou a se instalar dentro de mim. E quanto mais eu relembrava minha passagem do campo para a cidade, mais percebia que aquele bairro representava uma espécie de continuação da nossa luta – uma tentativa de reconstruir, em solo urbano, aquilo que tínhamos perdido quando deixamos nossas pequenas terras: o senso de pertencimento. A mudança de nossa família para Pacaembu representou mais do que uma simples troca de endereço - foi uma travessia emocional, carregada de expectativas e incertezas. Lembro-me das poucas malas, baús e sacos de estopas dos utensílios simples e do silêncio apreensivo que acompanhou a viagem. Meu pai caminhava à frente, guiando-nos com a firmeza que sempre demonstrou, enquanto minha mãe tentava acalmar os menores, que se assustavam com o novo e se despediam, em lágrimas, do pouco que já conheciam. A chegada ao Jardim Marajá foi marcante. O bairro era de chão de terra vermelha, um tanto deserto e as poucas casas que ali havia  nos lotes ainda pertenciam ao Sr Avamor Berlanga Mugnai.

 

 

Benedito José Rodrigues
Enviado por Benedito José Rodrigues em 05/12/2025
Alterado em 05/12/2025
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