Jose Benedito Rodrigues
Contos, Crônicas
Textos

         Não pode faltar vinho

 

          Augusto e Maria sempre sonharam em ter uma casa própria. Durante anos, pagaram aluguel e viveram de mudanças, daqui pra lá e de lá pra cá esperando o dia em que poderiam chamar a casa de um lugar de “nosso”. Quando finalmente conseguiram um terreno no Jardim Marajá, com muito esforço, começaram a erguer sua casa, pouco a pouco, tijolo por tijolo. É claro que nunca tiveram luxo, e na época não tinha fogão a gás, geladeira e nem televisão. As paredes pintadas de uma caiação branca, janelas e portas de madeira onde tudo eram simples e a mobília modesta para aquela época. Mas havia ali naquela casa uma coisa que nunca faltava: um coração sempre aberto para acolher a todos: familiares, parentes, amigos e vizinhos. Quando um novo vizinho chegava ao Jardim Marajá, Augusto e Maria eram os primeiros a estenderem a mão. Se alguém precisava de ajuda com as crianças, um xícara de café emprestado, açúcar, farinha de mandioca ou para organizar a casa, Maria logo oferecia seu apoio hospitaleiro. E isso em pouco tempo, a casa deles se tornou um ponto de encontro, um lugar onde as pessoas se sentiam bem-vindas, onde o café sempre estava pronto e a escuta horas a fim era disponível. Certa vez, um amigo vizinho vendo tanta bondade e consideração brincou: Vocês têm certeza de que essa casa é de vocês? Parece mais de todo mundo! Augusto e Maria sorriram e responderam: Esta casa é nossa, sim. Mas o lar... esse a gente constrói junto.E havia ainda uma tradição curiosa naquela casa simples, mas sempre cheia de gente: nunca podia faltar vinho. Não era vinho fino, desses encontrados em garrafa bonita. Era o vinho comprado na venda do seu Zé da esquina, servido em copos comuns, às vezes até em xícaras quando a visita era grande demais para o pouco que tinham. Para Augusto, o vinho era símbolo de partilha. Ele dizia que um gole, mesmo pequeno, "abria conversa", deixava o coração mais leve e aproximava ainda mais as pessoas. Já Maria tinha outra crença: toda vez que recebiam alguém, derramava uma gotinha no chão antes do primeiro brinde e dizia baixinho: Para que nunca falte alegria nesta casa.E assim acontecia. O vinho estava presente nas celebrações simples: quando um vizinho arrumava emprego, quando uma família chegava de mudança para o Jardim Marajá, quando uma criança nascia ou quando alguém precisava apenas desabafar as durezas da vida. Teve um dia em que um morador novo, tímido e meio desconfiado, recusou o convite de entrar. Augusto insistiu: Venha só um pouquinho. Aqui ninguém fica sozinho. Ele entrou, sentou-se, tomou um gole de vinho e, pela primeira vez em muito tempo, sorriu. Naquela noite, ganhou amigos e também ganhou um lar longe do seu lar.Assim, com o café sempre quente, a hospitalidade de Maria, as histórias de Augusto e a garrafa de vinho que nunca podia faltar, aquela casa modesta se tornou mais do que um endereço. Tornou-se um porto seguro, um pedaço de aconchego para todos que passavam pelo Jardim Marajá. Porque, como dizia Maria rindo: Casa a gente constrói com tijolo... mas lar a gente constrói com gente.

Benedito José Rodrigues
Enviado por Benedito José Rodrigues em 05/12/2025
Alterado em 05/12/2025
Comentários