Um trem moderno que já roda desde a década de sessenta quando o conheci aqui na Cidade grande. Hoje eu quero falar de um outro trem, bem mais moderno e rápido diferente daquele, FEPASA, que já teve muitas histórias aqui contadas. Principalmente nos anos 60, 70 e 80 quando os "jovens", daquela época, deixaram suas cidades do interior e vieram para Campinas, Jundiaí, São Bernardo do Campo, Santo André, Guarulhos, Osasco e São Paulo. Em sua maioria, estes jovens, vieram em busca de empregos. Eu fui um destes que vieram e que durante mais de duas ou três décadas também fiz uso do transporte metropolitano de São Paulo todos os dias. Com chuva. Com calor. Com frio. Lá ia eu "bater o cartão de ponto". O relógio, despertador, naquele tempo soava diariamente as 04:00 da madrugada. Tão cedo? Nem tanto. Por volta das 05:00 da madrugada começava a viagem até o trabalho. Era um ônibus inicial ou uma caminhada até a Estação CPTM. Depois um embarque até o Terminal Barra Funda. Em seguida o embarque no Metrô Corinthians Itaquera até o Carrão. E por último um ônibus em direção ao Terminal São Mateus. Um percurso longo feito diariamente. Era preciso. Não tinha outro jeito. E foi assim por vários anos. Hoje, quando chego no Terminal Barra Funda parece que nada mudou com o passar dos anos. Ainda é possível sentir aquela correria de outrora e que hoje não preciso mais fazer. E neste momento parece que aquela rotina toda iria se repetir. Mas a verdade é que, mesmo sem precisar correr, algo dentro de mim ainda se move quando o trem parte. É como se uma parte daquele homem trabalhador, que enfrentou madrugadas e distâncias, ainda estivesse ali sentado em algum vagão, indo cumprir mais um dia. Fico observando o painel eletrônico mudar de cor, anunciando próximas partidas. Antes, aquilo decidia meu destino por horas: "linha tal... plataforma tal... sentido tal...". Era quase como seguir ordens. Hoje, apenas observo como quem contempla uma fotografia antiga familiar, mas distante. Caminho lentamente pelo corredor da estação e percebo detalhes que antes jamais via.Talvez porque, naquela época, eu não tinha tempo para reparar. O trabalhador não olha o teto, não observa o movimento dos seguranças, não vê a arquitetura. Ele olha apenas o relógio. Agora, sem relógio para me apressar, vejo tudo: o brilho do piso, as lojas que abriram e fecharam ao longo dos anos, as escadas rolantes que substituíram aquelas antigas, pesadas e sempre superlotadas. Até o cheiro mudou menos graxа, menos fumaça, mais limpeza, mais modernidade. Mas o que não mudou é o sentimento que habita aquele lugar: a luta diária. O vai e vem da vida real. Gente que carrega o mundo dentro de uma mochila simples. E nesses passos lentos que dou ali dentro, lembro-me de quando eu fazia o trajeto inteiro na força do hábito. Era como se meu corpo já soubesse sozinho o caminho: Ônibus CPTM Barra Funda Metrô→ → Carrão São Mateus. Um ritual. Meu ritual de tantas décadas. Hoje, olhando a mesma linha de trem, penso no quanto mudei e no quanto aquele percurso ajudou a construir quem sou. Quantos pensamentos tive dentro daqueles vagões? Quantas decisões importantes? Quantas esperanças? Quantos medos? Quantos sonhos nascidos e quantos abandonados entre uma estação e outra? O trem chega novamente. As portas se abrem. Mais pessoas descem. Mais pessoas sobem. A vida continua passando diante dos meus olhos, e por um instante tenho a sensação de que, se eu desse apenas mais um passo para dentro, tudo voltaria a ser como era antes. Mas não. Hoje minha viagem é outra. É a viagem das memórias. E essa, ninguém mais me tira. Caminho em direção à saída da estação. O sol lá fora me lembra que o tempo passou e que, apesar de tudo, venci.