Jose Benedito Rodrigues
Contos, Crônicas
Textos

Quando 2100 bater na porta

Não sei exatamente quando começamos a aceitar que o futuro chegaria sem pedir licença. Talvez tenha sido no dia em que uma máquina respondeu mais rápido do que um homem. Ou quando um aplicativo decidiu quem merecia crédito, trabalho ou atenção. O fato é que o ano de 2100 deixou de ser distante. Ele já bate à porta. As previsões falam de um mundo ultratecnológico, governado por inteligências artificiais e acessível a poucos. Um mundo eficiente, organizado, rápido — mas não necessariamente humano. Olhando ao redor, lendo as notícias, observando o cotidiano, tenho a sensação de que estamos correndo, mas sem saber para onde, e deixando muita gente para trás no caminho. No Brasil, os números não são frios: são dolorosos. Milhões ainda não dominam a leitura, outros tantos não encontram trabalho. Como competir com algoritmos, máquinas autônomas e sistemas inteligentes quando falta o básico? A tecnologia avança, mas não estende a mão. Ela passa, ignora, substitui. O capitalismo, esse velho conhecido, não perdoa atrasos. Não acolhe quem não se adapta, não espera quem tropeça. Em 2100, não bastará força nos braços; será preciso ter códigos na mente, criatividade nos dedos e acesso ao que sempre foi privilégio de poucos. Quem não tiver, ficará invisível. Isso já acontece. No banco sem atendente, na lavoura sem trabalhadores, na empresa sem pessoas, na escola mediada por telas. Tudo funciona, tudo produz, tudo cresce — menos a dignidade humana. Quem não se encaixa vira estatística, vira sobra, vira silêncio. Talvez não haja volta. Talvez estejamos chamando de progresso aquilo que, para muitos, será abandono. Se o futuro continuar seguindo esse ritmo, 2100 não marcará o auge da civilização, mas o momento em que percebemos, tarde demais, que avançamos demais sem olhar para trás. E assim, sem explosões ou grandes catástrofes, o fim pode chegar de forma discreta — na exclusão cotidiana, na indiferença programada, na ausência do humano. Um fim silencioso. Um fim anunciado.

Benedito José Rodrigues
Enviado por Benedito José Rodrigues em 23/12/2025
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