E o velho "Cinema". Quem é que nunca foi ao cinema? É claro, tudo muito diferente do que é hoje o Cinemark. Assim era o "Cine Luz". O cinema ainda era uma novidade na cidade. Eram poucas as pessoas que tinham bons televisores em casa. Daí, a opção de passeio na cidade era andar na praça, no jardim, ir na igreja e depois e ir ao cinema aos sábados e domingos. O cinema funcionava em um grande prédio antigo. Ele foi construído pela colônia nipônica do município. De inicio exibia muitos filmes japonês como os de samurai. O cinema tinha uma entrada principal pela Avenida Iracema, hoje Avenida Vereador José Gomes Duda. E duas saídas laterais. Em seu interior duas bilheterias bem na entrada. Uma sala de projeção no andar de cima. Um grande salão com várias fileiras de poltronas de madeiras. E lá no fundo uma grande tela branca. Até que ele era confortável. E nem era nenhum “Cinemark”. Porem, era bem aconchegante. Bem na entrada ainda tinha uma pequena loja de doces, balas de hortelã e chicletes. Não tinha pipoca. E nem amendoim torrado. Para isso, na rua bem em frente tinha um carrinho de pipoca. Nas paredes na entrada, ficavam expostos os cartazes dos filmes que seriam exibidos ao longo da semana. Não podemos esquecer que os filmes eram um rolo que vinha de São Paulo e eram exibidos em vários cinemas das cidades do interior. E naquele dia eu fui ao cinema. Era uma sessão de matinê dás quatorze horas. O filme era “Tarzan”. Em preto e branco. O cinema transformou o nadador olímpico Weissmuller em Tarzan. As crianças gritavam e aplaudiam o Tarzan. Se emocionavam com seus gritos e com as lutas contra os bichos da selva e contra os bandidos. Agora o “Cine Luz” fechou...…e, mesmo fechado, o Cine Luz nunca deixou de existir de verdade. Porque cinema não é só prédio. Não é só tela, nem poltrona, nem projetor. Cinema é experiência. É encontro. É memória. Hoje, quando passo em frente ao antigo prédio, já sem filas, sem cartazes, sem o burburinho das sessões de domingo, ainda consigo ouvir o eco distante das vozes. As risadas das crianças, os cochichos dos casais, o ranger das poltronas de madeira, o estalo seco do projetor lá em cima, lutando para manter a imagem viva na tela. Consigo sentir o cheiro misturado da pipoca da rua com o doce das balas de hortelã. Consigo ver as sombras tremendo na tela branca, enquanto Tarzan saltava de cipó em cipó, desafiando a selva e a imaginação de todos nós. O tempo passou. Vieram as televisões coloridas. Depois os videocassetes, os DVDs, o streaming. Vieram os shoppings, as salas climatizadas, o som digital, as poltronas reclináveis. Mas nada substituiu aquele ritual simples de sair de casa, caminhar pela cidade, comprar o ingresso, escolher o doce, esperar a luz apagar e, por algumas horas, viajar sem sair do lugar. O Cine Luz ensinou a muita gente o que era sonhar acordado. Mostrou mundos que não cabiam na cidade pequena. Trouxe selvas, desertos, oceanos, guerras, amores impossíveis e heróis improváveis para dentro de um salão de alvenaria. Ele fechou as portas. Mas abriu janelas na memória. E talvez seja isso que os velhos cinemas fazem: quando se vão, deixam em nós uma saudade que nunca se apaga — como um filme antigo que termina, mas continua rodando, silencioso, dentro do coração.