Jose Benedito Rodrigues
Contos, Crônicas
Textos

Não podia faltar vinho

Augusto e Maria sempre sonharam em ter uma casa própria. Durante anos, pagaram aluguel e viveram de mudanças, daqui pra lá e de lá pra cá esperando o dia em que poderiam chamar a casa de um lugar de “nosso”. Quando finalmente conseguiram um terreno no Jardim Marajá, com muito esforço, começaram a erguer sua casa, pouco a pouco, tijolo por tijolo. É claro que nunca tiveram luxo, e na época não tinha fogão a gás, geladeira e nem televisão. As paredes pintadas de uma caiação branca, janelas e portas de madeira onde tudo eram simples e a mobília modesta para aquela época. E havia ainda uma tradição curiosa naquela casa onde tudo era simples, mas sempre cheia de gente: nunca podia faltar vinho. Não era vinho fino, desses encontrados em garrafa bonita. Era o vinho comprado na venda do seu Zé da esquina, servido em copos comuns, às vezes até em xícaras quando a visita era grande demais para o pouco que tinham. Para Augusto, o vinho era símbolo de partilha. Ele dizia que um gole, mesmo pequeno, “abria conversa”, deixava o coração mais leve e aproximava ainda mais as pessoas. Já Maria tinha outra crença: toda vez que recebiam alguém, derramava uma gotinha no chão antes do primeiro brinde e dizia baixinho: — Para que nunca falte alegria nesta casa. E assim acontecia. O vinho estava presente nas celebrações simples: quando um vizinho arrumava emprego, quando uma família chegava de mudança para o Jardim Marajá, quando uma criança nascia ou quando alguém precisava apenas desabafar as durezas da vida.

Benedito José Rodrigues
Enviado por Benedito José Rodrigues em 28/01/2026
Alterado em 28/01/2026
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