Jose Benedito Rodrigues
Contos, Crônicas
Textos

O trem parte

O trem parte. Um apito curto, moderno. As portas se fecham. E eu fico para trás — pela primeira vez feliz em ficar. Afinal, hoje eu não preciso mais correr. Hoje eu apenas recordo. E é nessa recordação que eu encontro paz. Mas a verdade é que, mesmo sem precisar correr, algo dentro de mim ainda se move quando o trem parte. É como se uma parte daquele homem trabalhador, que enfrentou madrugadas e distâncias, ainda estivesse ali sentado em algum vagão, indo cumprir mais um dia. Fico observando o painel eletrônico mudar de cor, anunciando próximas partidas. Antes, aquilo decidia meu destino por horas: “linha tal… plataforma tal… sentido tal…”. Era quase como seguir ordens. Hoje, apenas observo como quem contempla uma fotografia antiga — familiar, mas distante. Caminho lentamente pelo corredor da estação e percebo detalhes que antes jamais via. Talvez porque, naquela época, eu não tinha tempo para reparar. O trabalhador não olha o teto, não observa o movimento dos seguranças, não vê a arquitetura. Ele olha apenas o relógio. Agora, sem relógio para me apressar, vejo tudo: o brilho do piso, as lojas que abriram e fecharam ao longo dos anos, as escadas rolantes que substituíram aquelas antigas, pesadas e sempre superlotadas. Até o cheiro mudou — menos graxa, menos fumaça, mais limpeza, mais modernidade. Mas o que não mudou é o sentimento que habita aquele lugar: a luta diária. O vai e vem da vida real. Gente que carrega o mundo dentro de uma mochila simples. E nesses passos lentos que dou ali dentro, lembro-me de quando eu fazia o trajeto inteiro na força do hábito. Era como se meu corpo já soubesse sozinho o caminho: ônibus → CPTM → Barra Funda → Metrô → Carrão → São Mateus. Um ritual. Meu ritual de tantas décadas. Hoje, olhando a mesma linha de trem, penso no quanto mudei — e no quanto aquele percurso ajudou a construir quem sou. Quantos pensamentos distantes tive dentro daqueles vagões? Quantas horas de sono perdidas nas madrugadas frias e as vezes geladas? Quantas e tantas decisões foram importantes? Quantas esperanças? Quantos medos? Quantos sonhos nascidos e quantos abandonados entre uma estação e outra? O trem chega novamente.  As portas se abrem. Mais pessoas descem. Mais pessoas sobem. A vida continua passando diante dos meus olhos, e por um instante tenho a sensação de que, se eu desse apenas mais um passo para dentro, tudo voltaria a ser como era antes. Mas não. Hoje minha viagem é outra. É a viagem das memórias. E essa, ninguém mais me tira. Caminho em direção à saída da estação. O sol lá fora me lembra que o tempo passou — e que, apesar de tudo, venci.

Benedito José Rodrigues
Enviado por Benedito José Rodrigues em 28/01/2026
Alterado em 28/01/2026
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