Jose Benedito Rodrigues
Contos, Crônicas
Textos

Falando de Abrigo

Falando de abandono, é impossível não pensar no abrigo. Palavra curta, quase suave, que deveria significar descanso, colo, recomeço. O abrigo nasce com a promessa de ser um espaço acolhedor, um intervalo de proteção no meio do caos. Um lugar onde a infância, ferida, pudesse ao menos respirar. Em termos legais, ele é provisório. Assim determina a lei, assim determina o Estatuto da Criança e do Adolescente: uma medida excepcional, um tempo de espera até que um novo lar seja possível. Mas, na prática, o provisório muitas vezes se alonga. Dias viram meses, meses viram anos. E o que era passagem vira morada. Ali estão crianças cujos vínculos foram rompidos ou fragilizados. Algumas lembram do rosto da mãe. Outras guardam apenas fragmentos: um cheiro, uma voz distante, um gesto interrompido. Há as que não lembram de nada — e talvez isso doa ainda mais. O abrigo protege, sim, mas não substitui. Cuida, mas não apaga a ausência. E então surge a pergunta inevitável: até onde pode chegar o ser humano? Em que ponto alguém decide abandonar? Os noticiários falam disso todos os dias, como se fosse mais um fato entre tantos outros. Crianças deixadas em portas, em hospitais, em sacolas, em becos. É triste. É duro. É uma ferida aberta do nosso tempo. Por que isso ainda acontece? As respostas se espalham como estilhaços. O desemprego, a crise financeira, a instabilidade política. A pobreza extrema, a gravidez indesejada, a falta de apoio, a solidão. Há famílias desestruturadas, laços rompidos antes mesmo de se formarem. Há desespero, medo, ignorância, abandono que gera abandono. Não cabe aqui julgar. Talvez nem seja possível definir um único motivo. A realidade é mais complexa do que qualquer sentença moral. O que se pode afirmar, com honestidade, é que essas situações existem — e estão mais próximas do que gostaríamos de admitir. Estão ao lado, na rua seguinte, na cidade pequena, longe dos holofotes. É um problema grave do presente e uma ameaça ao futuro. Porque cresce. Aumenta todos os dias. E não é exclusividade das grandes cidades, como muitos preferem acreditar. Espalha-se silenciosamente por municípios pequenos, por bairros esquecidos, por regiões onde o poder público mal chega. O mundo, aliás, já conhece bem esse cenário. Crianças enjeitadas atravessam a história da humanidade. Estão na Síria devastada pela guerra, nos campos da África, no Sudão esquecido, no Haiti ferido, na Ucrânia em conflito, na Venezuela em colapso, na Palestina sitiada. Estão também na memória antiga da Europa, nas vielas estreitas onde pequenos corpos dormiam ao relento, roubavam comida para sobreviver, buscavam abrigo, carinho e um caminho possível. Mudam os cenários, mas a dor se repete. Aqui não é diferente. Não foge à regra. Ainda há muito a fazer. Há muito a denunciar, a cobrar, a transformar. Porque enquanto houver crianças crescendo sem proteção, a sociedade inteira falha. E enquanto o abrigo for o destino final — e não a ponte — algo essencial seguirá quebrado. Talvez o maior abandono não seja apenas o da criança deixada, mas o da responsabilidade coletiva. Aquela que deveria nos inquietar, nos mover, nos tirar do conforto da indiferença. E por aqui… ainda há muito que reclamar. Mas também, talvez, muito pelo que lutar.Acordar no abrigo não é como acordar em casa. Não há cheiro familiar vindo da cozinha, nem uma voz conhecida chamando pelo nome com doçura. O dia começa ao som coletivo: passos no corredor, portas que se abrem, vozes misturadas. A criança acorda sem saber exatamente onde está no mundo, apenas onde está naquele quarto. O quarto é dividido. Camas alinhadas, cobertores parecidos, poucas coisas pessoais. Cada objeto tem um valor enorme: um chinelo velho, um brinquedo gasto, uma roupa que veio junto no dia da chegada. Ali, a identidade precisa caber em uma gaveta. Ela levanta. Observa. Aprende rápido a rotina. No abrigo, quem demora fica para trás. Escova os dentes em fila, come no horário certo, guarda o prato. Aprende a esperar. Espera pela vez, pela atenção, pelo afeto que sempre vem em porções pequenas demais. Na escola, carrega um silêncio que não está nos cadernos. Às vezes não sabe responder quando perguntam sobre a família. Outras vezes inventa. Aprende cedo que a verdade pode machucar mais do que a mentira. O olhar dela é atento, desconfiado. Quem já foi deixado uma vez teme ser deixado de novo. De volta ao abrigo, há tarefas, regras, horários. Há também risos inesperados. Criança ainda é criança. Brinca quando pode, corre quando esquece, sorri quando o coração dá trégua. Mas basta um gesto atravessado, uma ausência prolongada, para que a ferida se abra outra vez. À noite, o sono não vem fácil. A cama é limpa, mas não é colo. O cobertor aquece, mas não abraça. No escuro, os pensamentos crescem. Algumas crianças choram baixinho. Outras se calam por completo. Há quem converse com o nada, quem imagine um rosto que talvez volte, quem faça promessas silenciosas para um futuro que ainda não entende. Ela aprende, cedo demais, a ser forte. Aprende a não pedir muito. Aprende a não criar expectativa. Porque expectativa, ali, dói. Os cuidadores fazem o que podem. Alguns olhares são sinceros, algumas mãos são gentis. Mas ninguém consegue ser tudo para todos. O amor, quando dividido, chega em doses medidas. E a criança sente. Sempre sente. De vez em quando, alguém aparece. Um casal, uma visita, uma possibilidade. O coração acelera, mas o corpo não comemora. A esperança, ali, é cautelosa. Já aprendeu que promessas nem sempre voltam. E assim passam os dias. Um atrás do outro. Enquanto o mundo segue lá fora, a infância espera. Espera por um nome chamado com exclusividade. Por um abraço que não tenha hora para acabar. Por alguém que fique.

Benedito José Rodrigues
Enviado por Benedito José Rodrigues em 30/01/2026
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