Jose Benedito Rodrigues
Contos, Crônicas
Textos

Simplesmente Maria (1)

As pessoas mais antigas já diziam que para tudo dar certo em uma vida a dois era necessário comer um saco de sal juntos. Se imaginarmos que duas pessoas conseguem consumir um quilo de sal por volta de quatro meses então já é possível afirmar que o casal já passou o período das festas e da lua de mel que são um dos momentos importantes no início da vida a dois. No entanto, apesar de isso ser o começo no matrimonio, não podemos esquecer que tudo teve o seu começo lá no namoro de alguma forma. E não no "ficar" de hoje que ultrapassa e atropela todas as etapas até chegar no matrimônio, pelo menos era bem assim nos tempos antigos onde tudo era devidamente acompanhado não só pelo casal como pelos país e familiares dos dois lados e mesmo assim ainda escapava alguns desta via de regra. Sim, isso mesmo via de regra! Era comum quando de uma partilha de bens os pais dividirem seus bens apenas entre os filhos homens, justificando aí que as filhas teriam que casar com um homem que já tivesse bens financeiros suficientes para poder sustentar a família. Ao contrário, dos filhos que estes iriam tocar a propriedade dos pais e lá na frente poderiam casar com quem quisessem. Bem, com a Maria não foi bem assim que aconteceu. Ela nasceu nos primórdios da década de trinta em meio a um povoado que acabara de conhecer o inicio de um processo de colonização naquelas terras localizadas entre o Rio Aguapei e o Rio do Peixe, portanto naquela época eram terras cultiváveis que, além das derrubadas das matas e as clareiras sendo abertas no meio da matas estas seriam usadas principalmente para o plantio da lavoura de café. E tão verdade é que na antiga Estação do Brás há indícios de que para lá muitos imigrantes italianos que chegavam no Porto de Santos eram contratados pelos fazendeiros e eles se dirigiam para aquelas terras distante para trabalhar na lavoura do café que movimentava na época a economia do Brasil. A abertura de novas terras no Oeste de São Paulo foi motivada principalmente pela expansão da economia cafeeira entre meados do século XIX e início do século XX. A cultura do café exigia solos de alta qualidade, e o Oeste Paulista possuía a fértil “terra roxa”, ideal para o cultivo. Naquela época, o café era o principal produto de exportação do Brasil, e a crescente demanda no mercado externo incentivava a ampliação das áreas de cultivo para maximizar a produção e os lucros. A expansão dessas novas áreas foi viabilizada e impulsionada pela construção e desenvolvimento da rede ferroviária, que permitiu o escoamento mais rápido e eficiente do café das fazendas do interior até o porto de Santos para exportação. Outro fator importante foi a gradual extinção da mão de obra escravizada — especialmente após a Lei Eusébio de Queiroz, em 1850, que proibiu o tráfico negreiro. Diante disso, os fazendeiros do Oeste Paulista passaram a adotar o trabalho de imigrantes. Maria, filha de italianos, desde pequena já se dedicara a ajudar sua mãe nos afazeres domésticos. É claro que ela não teve muitas oportunidades para frequentar um curso primário regular pois a escola ficava muitas léguas distante da propriedade de seu pai. Então restava a ela aprender tudo o que sua mãe ia lhe ensinando com o passar dos tempos até que instalaram uma escola bem próximo e aí pode sim cursar o primário. E assim foi mudando as atividades diárias de Maria que tinha que acordar cedo, se preparar, tomar seu café e em seguida rumava para a escola e lá ficava até meio-dia. Na volta da escola para sua casa além de levar o café da tarde para seu pai e irmãos ela ajudava sua mãe nos afazeres domésticos. E assim foi até que ela se tornasse uma mocinha. Sim, uma mocinha já bem prendada pois aprendera não só cuidar da casa mas também já sabia cozinhar, lavar roupas, passar roupas, costurar, bordar e tricotar. E com isso já tinha outras incumbências como preparar o café da manhã para todos e ajudar a sua mãe no preparo do almoço que mais tarde iria ser levado na roça para o pai e irmãos...

Benedito José Rodrigues
Enviado por Benedito José Rodrigues em 09/02/2026
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