Naquela noite, o silêncio do quarto parecia maior do que o mundo. A janela entreaberta deixava entrar um fio de vento que tocava as cortinas com delicadeza, como se até o ar tivesse cuidado para não feri-la mais do que já estava ferida. Sentada à beira da cama, ela encarava o chão com a sensação de que algo dentro de si havia se deslocado para sempre. Sabia que não era a primeira pessoa a ter o coração partido. Milhões já haviam sentido aquela mesma dor — aquela mistura de vazio e insistência, de lucidez e negação. Ainda assim, a experiência era absolutamente sua. Seus olhos ardiam como se fossem os primeiros no mundo a descobrir o peso das lágrimas. Tentava convencer-se de que precisava ser forte. Repetia mentalmente que era apenas uma fase, que o tempo resolveria, que a dignidade exigia distância. Mas cada argumento racional se desfazia diante da memória da voz dele, do modo como ele sorria ao dizer seu nome, do calor das mãos que agora não estavam mais ali. Ela sabia que poderia parecer tola. Havia algo quase infantil na maneira como permanecia esperando — esperando um telefonema que não vinha, uma mensagem que não chegava, um arrependimento que talvez nunca existisse. Mesmo assim, não conseguia abandonar aquela esperança frágil que insistia em sobreviver. Desde o dia em que ele afastara seu amor como quem fecha uma porta sem olhar para trás, ela sentia-se fora de si. Como se parte de sua identidade tivesse sido construída ao redor daquele sentimento e, de repente, estivesse sem contornos. Não havia onde se esconder. A saudade a encontrava na cozinha, na rua, no reflexo do espelho. Era impossível fugir de algo que habitava o próprio peito. Havia uma guerra silenciosa dentro dela. A mente, prática e orgulhosa, dizia: “Esqueça. Preserve-se. Recomece.” O coração, porém, teimoso e fiel, sussurrava: “Espere. Ame. Permaneça.” E entre essas duas vozes ela se sentia suspensa, incapaz de escolher um lado definitivo. Não era fraqueza. Era amor — daquele tipo que não se dissolve ao primeiro sinal de ausência. Um amor que não pede garantias, que não exige promessas, mas que simplesmente existe, mesmo quando não encontra abrigo no outro. Ela fechou os olhos e respirou fundo. Talvez o mundo esperasse que ela seguisse adiante com leveza, como se nada tivesse acontecido. Mas ali, naquele instante íntimo e silencioso, ela admitiu para si mesma aquilo que vinha tentando negar: Estava irremediavelmente dedicada a ele. E, por enquanto, isso era tudo o que sabia ser.