E naquele momento parecia que aquela rotina toda iria se repetir… Mas não. Hoje eu sou apenas um observador. Um viajante sem pressa, sem cartão de ponto para bater, sem horário rígido para cumprir. Caminho devagar pelo Terminal Barra Funda e vejo rostos apressados, iguais aos que já fui um dia. Jovens, adultos, trabalhadores, estudantes… cada um com sua urgência, seus sonhos, suas preocupações. E eu ali, apenas lembrando. O trem moderno de agora não tem nada a ver com aquele dos anos 60 que eu conheci quando cheguei à Cidade grande. Nem com os trens da FEPASA, que tantas vezes contei histórias. Aquele trem era barulhento, rangia nos trilhos, demorava, mas fazia parte das nossas vidas. Hoje, não. Hoje ele é silencioso, rápido, tecnológico… quase nem parece trem. Mas ainda carrega gente. Muita gente. E no fundo, é isso que importa. O que me chama atenção é que, apesar de tanta modernidade, a essência continua a mesma: — O trabalhador madrugando. — A pressa para chegar. — O desejo de voltar. — A esperança de conquistar algo melhor. Fico ali, parado, olhando o vai e vem das pessoas. E uma memória puxa outra. Lembro-me de quando eu chegava, ainda escuro, o corpo cansado, mas a mente firme: “É preciso… não tem outro jeito”. Lembro das longas esperas na plataforma, do trem lotado, das conversas rápidas, dos cochilos apoiados no ombro de desconhecidos. Lembro até do cheiro da madrugada, aquele ar frio que parecia nos empurrar para frente. E agora, vendo tudo novamente, percebo que aquele tempo ficou dentro de mim. Não com tristeza, nem com saudade amarga. Mas com orgulho. Orgulho de ter vivido tudo aquilo. De ter enfrentado, persistido, construído uma vida na base da disciplina e da esperança. O trem parte. Um apito curto, moderno. As portas se fecham. E eu fico para trás — pela primeira vez feliz em ficar. Afinal, hoje eu não preciso mais correr. Hoje eu apenas recordo. E é nessa recordação que eu encontro paz.