Jose Benedito Rodrigues
Contos, Crônicas
Textos

Eu cheguei na Cidade grande

O trem seguiu pela noite adentro como um pensamento inquieto. Eu quase não dormi. Cada parada, cada solavanco, cada apito parecia me lembrar que eu estava deixando tudo para trás. Em alguns momentos, encostava a cabeça na janela e tentava enxergar algo lá fora — mas via apenas reflexos, sombras e o meu próprio rosto, misturado com a escuridão. Quando o dia começou a nascer, alguém disse: — Estamos chegando. Meu coração apertou. Aos poucos, as paisagens foram mudando. Os campos deram lugar a casas, as casas viraram prédios, e os prédios começaram a se multiplicar como se não tivessem fim. Tudo parecia maior, mais rápido, mais cheio. E então o trem parou. Desci. A estação era imensa. Barulhenta. Gente andando para todos os lados, vozes se misturando, passos apressados, anúncios ecoando no alto. Por um instante, fiquei parado, segurando minha mala, sem saber para onde ir. Ninguém olhava para ninguém. Era como se cada pessoa já soubesse exatamente o seu destino — menos eu. Respirei fundo e comecei a andar. Lá fora, a cidade se revelou de verdade. Carros passavam sem parar. Ônibus lotados. Gente atravessando a rua com pressa. Prédios altos escondendo o céu. O ar parecia mais pesado, carregado de fumaça e urgência. Era tudo aquilo que eu imaginava. E, ao mesmo tempo, não era nada do que eu imaginei. Nos primeiros dias, tudo foi novidade. Eu andava pelas ruas olhando para cima, admirado com os edifícios. Observava vitrines, placas, luzes. Cada esquina parecia contar uma história diferente. À noite, a cidade não dormia — ela brilhava. Mas logo a realidade começou a se mostrar. Arrumar trabalho não era tão simples quanto diziam. As portas nem sempre se abriam. Muitas vezes, eu ouvia um “não” antes mesmo de terminar de falar. Outras vezes, nem resposta havia. O dinheiro, que já era pouco, foi ficando curto. Passei a dividir um quarto pequeno com outros dois homens que também vieram do interior. Cada um tinha sua própria história, mas todas eram parecidas: sonhos grandes, bolsos vazios, esperança teimosa. — A gente não pode desistir — dizia um deles, o Joaquim. — Quem desiste volta do mesmo jeito que saiu. Eu não queria voltar. Não ainda. Consegui, depois de algum tempo, um trabalho simples. Nada daquilo que eu sonhava quando corria atrás do trem na infância. Mas era o começo. Os dias passaram a ter ritmo. Acordar cedo. Pegar condução lotada. Trabalhar o dia inteiro. Voltar cansado. Repetir. A cidade grande não parava — e exigia que eu também não parasse. Com o tempo, fui aprendendo seus caminhos. Já não me perdia com tanta facilidade. Já não olhava tanto para cima. Já não me encantava com tudo. Mas também não deixei de sentir. Havia momentos, no meio da multidão, em que eu me sentia invisível. Como se fosse apenas mais um entre tantos. Ninguém sabia meu nome. Ninguém conhecia minha história. E foi numa dessas tardes, voltando do trabalho, que ouvi um som que me fez parar. Um apito. Vinha de longe, abafado pelo barulho da cidade. Mas era inconfundível. O apito de um trem. Meu coração reagiu na hora. Segui o som quase sem pensar, atravessando ruas, desviando de pessoas, até encontrar a linha férrea. Fiquei ali, parado, olhando o trem passar. Por um instante, tudo voltou. O menino correndo. A estação pequena. O seu Anselmo. Os sonhos. Eu sorri. Não com a mesma inocência de antes — mas com algo mais profundo. Entendi, naquele momento, que a cidade grande não tinha levado quem eu fui. Ela apenas me transformou. Ainda havia em mim aquele menino que acreditava em caminhos, em partidas, em destinos. Só que agora eu sabia: Nem todo sonho se realiza do jeito que a gente imagina. Mas isso não significa que ele se perde. Às vezes, ele muda de forma. Naquela noite, voltei para o quarto com passos mais leves. Sentei na cama, peguei minha mala — aquela mesma que trouxe comigo — e abri. Lá dentro, entre roupas simples, encontrei algo que eu nem lembrava que tinha guardado: uma pequena bolinha de gude. Segurei-a na mão por um tempo. E, pela primeira vez desde que cheguei, senti que não estava perdido. Eu estava em caminho. Como sempre estive. Porque, no fim das contas, a vida é isso: Uma sequência de partidas. E, talvez, a gente nunca pare de correr atrás de algum trem.

Benedito José Rodrigues
Enviado por Benedito José Rodrigues em 22/04/2026
Alterado em 22/04/2026
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