Jose Benedito Rodrigues
Contos, Crônicas
Textos

Era um chamado

Com certeza você tem alguma religião, ou melhor a maioria das pessoas tem uma religião. Qual é a sua religião? Aquela que você realmente segue, cujos ensinamentos procura obedecer no silêncio da consciência? Não escrevo para julgar crenças ou seitas. Pelo contrário. Durante muito tempo, questionei o que chamam de religião. Quando percebi que muitas se sustentam em dízimos e contribuições, confesso: tornei-me desconfiado. Ainda assim, reconheço — cada um busca uma doutrina de vida que melhor lhe conforte a alma. E nisso, somos livres. Mas o que vou contar a seguir… não se trata exatamente de fé. Ou talvez seja. Foi como se eu estivesse lá. Muito perto. Presenciando tudo. Havia uma grande tristeza espessa no ar, daquelas que não cabem em palavras. Uma dor silenciosa, profunda — quase impossível de compreender. E, ainda assim, havia também uma estranha lição escondida naquele instante: a vida nunca nos prepara para o inesperado. Aquela moça tinha lá seus dezessete anos. Uma adolescente na flor da idade, como dizem — e dizem bem. Era pianista. Daquelas que não apenas tocam nas teclas, mas sentem a música atravessar o corpo. Os pais sempre presentes, atentos, daqueles que ainda acreditam que proteger seus filhos ainda é possível. Ela era leve. Viva. Impaciente com o tempo. Acreditava que sua maior dificuldade seria escolher entre dois caminhos: a música ou algum amor que surgisse naquela fase. Mas o destino… raramente respeita nossos planos. Naquele dia, o frio era intenso. A neve cobria tudo com um silêncio branco, quase bonito demais para esconder qualquer tragédia. A família viajava junta — um passeio simples, como tantos outros. Até a curva. Até o carro vindo na direção contrária. Até o impacto. Depois disso… o mundo deixou de ser o mesmo. Ela agora estava ali de pé. Mas não exatamente. Observava tudo. O carro destruído. O corpo imóvel dos pais. O movimento apressado dos socorristas. O irmão sendo retirado, ainda com vida. E ali… também estava ela. Ou melhor, o seu corpo. Foi nesse instante que compreendeu que não estava mais dentro de si. Um vazio tomou conta — não de ausência, mas de suspensão. Como se estivesse presa entre dois lugares. Nem vida, nem morte. Apenas um intervalo. Um limbo. Uma espera. Talvez aquele descrito em antigas crenças: um espaço destinado às almas que não carregam culpas graves, mas que também não foram plenamente redimidas. Um território sem dor física — mas carregado de silêncio. Ela via tudo. Os médicos. Os corredores do hospital. Os amigos chegando. Os familiares chorando. As vozes, os sussurros, as esperanças frágeis. E, ao mesmo tempo, mergulhava em lembranças. Fragmentos de vida. Risos, escolhas, músicas inacabadas. Seria aquilo uma experiência de quase morte? Um efeito do cérebro ferido? Ou algo que escapa completamente à explicação? Não importa. O que realmente importava era a decisão. Ficar… ou partir para sempre. Aceitar… ou resistir. Porque, no fundo, aquela não era apenas uma experiência. Era um chamado.

Benedito José Rodrigues
Enviado por Benedito José Rodrigues em 27/04/2026
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