Jose Benedito Rodrigues
Contos, Crônicas
Textos

Era a consciência

O tempo deixou de existir. Ou talvez tivesse assumido outra forma — mais lenta, mais densa, quase imóvel. No hospital, os dias passavam; para ela, tudo era um mesmo instante prolongado. Ela vagava. Não com passos, mas com intenção. Bastava querer — e estava lá. No quarto. Na sala de espera. Ao lado do próprio corpo. As máquinas respiravam por ela, num ritmo constante, mecânico. O som dos aparelhos era agora a trilha de sua existência suspensa. Um fio invisível ainda a prendia ali. Ainda. Seu irmão sobrevivera. Ela o viu. Deitado em outro leito, ferido, mas vivo. Às vezes, ele chorava em silêncio. Outras vezes, fitava o nada, como se tentasse encontrá-la em algum lugar entre o visível e o impossível. Ela tentou falar. Tentou tocá-lo. Mas não havia resposta. Era como gritar dentro de um sonho. Ninguém ouvia. Ninguém via. Até que, um dia, algo mudou. Não foi um som. Nem uma imagem. Foi uma presença. Sutil no início — quase imperceptível. Como um vento que não toca a pele, mas ainda assim é sentido. Ela não sabia dizer se vinha de fora… ou de dentro. Mas estava ali. E a chamava. Não com palavras, mas com uma espécie de compreensão silenciosa. Uma certeza sem linguagem. Havia um caminho. E ele não era único. Pela primeira vez desde o acidente, ela sentiu algo diferente do vazio. Medo. Porque agora havia escolha. E escolher significava abrir mão de algo. Se ficasse… voltaria ao corpo. À dor. À ausência irreparável dos pais. À vida incompleta que a esperava. Se partisse…deixaria tudo. O irmão. As amizades. A música que ainda não terminara de tocar. Deixaria de ser quem foi ou tenha sonhado um dia ser. Ela hesitou. E, nesse instante de dúvida, as lembranças vieram com mais força. Não como flashes fragmentados, mas como cenas inteiras. O primeiro toque no teclado do piano. O sorriso feliz e contagiante de sua mãe ao ouvi-la tocar. O pai, orgulhoso, mesmo sem entender bem de música. A vida. Era isso que a puxava. Não a vida perfeita. Nem a vida fácil. Mas a vida real. Imperfeita. Inacabada. Dolorosamente bela. A presença, então, pareceu recuar. Não como quem desiste. Mas como quem compreende. Ela deu um passo. Ou algo parecido com isso. Em direção ao próprio corpo. O ambiente ao redor começou a se dissolver — como névoa ao sol. O som das máquinas ficou mais alto. Mais presente. Mais… concreto. Havia peso. Havia dor. Havia retorno. E então— Um suspiro. Pequeno. Frágil. Mas suficiente. No monitor, uma alteração. Um sinal. Do lado de fora, alguém percebeu. Chamaram os médicos. Movimento. Vozes. Urgência. Mas, para ela, tudo era simples. Ela havia escolhido. E, ao escolher viver, aceitou também tudo o que viria com isso. A perda. A saudade. A reconstrução. Quando seus olhos finalmente se abriram, a luz parecia diferente. Mais dura. Clara demais. Mais verdadeira. E, ainda assim… necessária. Ela não sorriu. Ainda não. Mas, em algum lugar dentro dela, algo havia despertado — mais profundo do que antes. Não era apenas vida. Era a consciência. E, às vezes, isso é ainda mais difícil de carregar.

Benedito José Rodrigues
Enviado por Benedito José Rodrigues em 27/04/2026
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