Jose Benedito Rodrigues
Contos, Crônicas
Textos

Mãos que sustentam o lar

As Mãos que Sustentam o Mundo. Hoje, resolvi falar delas. Sim, das mulheres e das mães que, silenciosamente, sustentam o mundo dentro de casa. Digo isso porque vi de perto. Conheci a vida de algumas delas. E posso afirmar, sem exagero: nunca foi fácil para elas serem donas de casas — nem hoje, com tantas facilidades e modernidades. Atualmente, a rotina já era pesada. Manter a casa limpa e organizada, fazer compras, preparar refeições, cuidar das roupas da família, acompanhar a educação dos filhos, organizar momentos de lazer, levar e buscar crianças na escola… é uma lista que parece não ter fim. Mas nem sempre foi assim. Houve um tempo em que o cansaço não tinha pausa — e quase nada ajudava. Naquele tempo, muitas dessas mulheres viviam na roça. A vida era simples, mas exigia força. Recursos eram poucos. O dinheiro ficava sob responsabilidade do marido, e o trabalho doméstico recaía, quase por inteiro, sobre elas. Não havia máquina de lavar roupas, nem produtos modernos de limpeza. Para lavar roupas, cortava-se uma árvore. Do tronco, fazia-se uma tábua grossa, apoiada sobre dois pedaços de madeira fincados no chão. Era ali que as roupas eram batidas — depois de esfregadas com pedra de sabão feito em casa. O som seco da roupa contra a madeira marcava o ritmo de horas e horas de trabalho. Depois, vinha o enxágue. E, por fim, o varal improvisado: arames esticados, sustentados por varas de bambu. Só essa tarefa consumia quase o dia inteiro. Dentro de casa, o chão também exigia muito esforço. Quando não era de terra batida, recebia uma mistura de vermelhão com cimento, alisada com desempenadeira. Toda semana, era preciso lustrar com escovão e cera — vermelha ou amarela. Era trabalho de dobrar o corpo, forçar os braços, gastar a resistência. Eu mesmo cheguei a esfregar chão com escovão. Sei o peso que isso tem. E a cozinha? Também não era simples. O dia começava cedo, com o fogo do fogão a lenha. Eu disse maquina de lavar roupas, enceradeiras e fogão a gás era uma realidade que só mais tarde mudaria. Mas antes era preciso preparar a lenha — seca, rachada, no ponto certo para acender. Se estivesse úmida, nada feito. Com o fogo aceso, vinha o café. Um bule grande, água fervendo, o aroma se espalhando pela casa. Era a primeira refeição do dia — simples, mas essencial. E não havia descanso. O fogão já aceso era aproveitado para iniciar o almoço. Nos sítios, não existiam padarias. Quem tinha forno a lenha fazia o próprio pão, geralmente para o café da manhã e da tarde. Essas mulheres, além de tudo, eram artistas. Costuravam, bordavam, faziam crochê. Transformavam sacos de açúcar, farinha e fubá em toalhas, guardanapos, roupas. Criavam com as mãos o que não podiam comprar. Aliás, comprar não era tão simples. As cidades ficavam longe. O transporte, quando existia, era a pé, a cavalo ou de carroça. Ir ao comércio era quase uma jornada. As escolas também eram raras. Isso explica porque muitos pais e mães mal tinham concluído os primeiros anos do ensino primário. Mesmo assim, quando havia escola, a mãe fazia questão de preparar o filho para ir. E, na volta, as crianças ajudavam na roça, no cuidado com os animais, nas tarefas do dia. Curiosamente, não lhes faltava infância. O lazer estava na própria vida: correr pelo mato, nadar no riacho, subir em árvores, jogar bola em campo de terra, pescar. A natureza era o quintal. E os pais, quando podiam, iam ao terço, à missa ou assistir aos jogos de futebol no campo do bairro. Era uma vida dura, sim. Mas também cheia de sentido, de comunidade, de resistência. Por isso, quando penso nessas mulheres, não vejo apenas donas de casa. Vejo força. Vejo coragem. Vejo história. Mãos calejadas que, sem saber, ajudaram a sustentar muito mais do que uma casa — sustentaram gerações inteiras.

Benedito José Rodrigues
Enviado por Benedito José Rodrigues em 28/04/2026
Alterado em 28/04/2026
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