O velho pé de manga
O pé de manga
Tem coisas que o tempo não leva. Pode levar a casa, a roça, os caminhos e até as pessoas, mas certas lembranças ficam fincadas na gente como raiz em terra antiga. Para mim, uma dessas lembranças tem sombra, folhas verdes e um silêncio que fala: é o velho pé de manga.
Ele ficava bem no meio da roça de amendoim, enfrentando o sol sem nunca perder o verde. Era como se não sentisse o calor que fazia a gente suar desde cedo. Enquanto nós nos cansávamos, ele permanecia firme, oferecendo abrigo. Seus galhos largos eram casa dos bem-te-vis e descanso certo para quem precisava de um alívio.
Curioso é que nem sempre era tempo de manga. Ainda assim, o pé continuava generoso. As folhas secas forravam o chão, e a sombra, essa nunca faltava. Era ali que a vida desacelerava. Quando o sol das onze rachava o chão, alguém sempre dizia que já era hora de parar.
As marmitas apareciam, a moringa passava de mão em mão, e o mundo parecia caber naquele pedaço de sombra. Depois de comer, vinha o melhor momento: ficar ali, sem pressa. Alguns conversavam, outros apenas olhavam o nada — e tinha sempre quem se rendesse a um cochilo rápido, desses que renovam a alma.
O tempo passou, como sempre passa. O sitio e as casas já não existem. O bairro desapareceu e as famílias mudaram para a cidade. A roça virou pasto, o sítio deixou de existir e as lavouras ficaram só na lembrança. Muita coisa mudou, como muda a vida de todo mundo.
Mas, outro dia, de longe, eu vi que ele ainda estava lá.
O velho pé de manga, no mesmo lugar, cercado agora por gado e silêncio. Já não abriga trabalhadores nem escuta risadas na hora do almoço. Ainda assim, permanece. Como se guardasse, em cada galho, um pedaço de tudo que já foi vivido ali.
E talvez seja isso que certas coisas fazem: não impedem o tempo de passar, mas se recusam a desaparecer com ele.
Benedito José Rodrigues
Enviado por Benedito José Rodrigues em 04/05/2026
Alterado em 04/05/2026