A cerca antiga
A cerca antiga
Ela não chamava atenção como as árvores. Nem podia. Era uma fileira de mourões fincados no chão que circundavam toda a área do sitio delimitando a sua extensão territorial.
Era feita de madeira simples, já gasta pelo tempo, esticada ao longo do terreno como quem apenas cumpria sua função. Separava o que era de dentro e o que era de fora. Nada além disso.
Durante muito tempo, foi firme. Segurava o gado de um lado, protegia a roça do outro. Era linha de respeito — ninguém atravessava sem saber que estava passando de um lado para outro.
Mas, com o passar dos anos, a cerca começou a dizer mais do que parecia.
Ela viu a roça crescer e também viu a roça acabar. Assistiu à movimentação dos dias de colheita, ao entra e sai de gente, ao barulho das ferramentas, às conversas jogadas ao vento.
Depois, viu o silêncio chegar.
Os arames foram ficando frouxos. Alguns mourões cederam. Partes foram caindo, outras simplesmente deixaram de existir. Já não havia tanta coisa para proteger ou separar.
O que antes dividia, agora apenas marcava.
Hoje, quase não se nota sua presença. Quem passa, talvez nem perceba que ali já houve um limite, uma organização, um sentido.
Mas ela ainda está lá — torta, incompleta, resistindo como pode.
E, de certa forma, continua cumprindo seu papel.
Não de separar terras, mas de lembrar que tudo aquilo um dia teve dono, teve vida, teve história.
Porque há limites que o tempo apaga.
E há marcas que ele não consegue levar.
Benedito José Rodrigues
Enviado por Benedito José Rodrigues em 04/05/2026
Alterado em 04/05/2026