A velha paineira
A velha paineira
Eu ainda lembro bem da velha paineira.
Ela já era antiga naquela época — devia ter mais de cinquenta anos e passava fácil dos cinco metros de altura. Ficava à beira da estrada, em frente à colônia dos lavradores, onde viviam, em sua maioria, italianos, japoneses e espanhóis.
No fim da tarde, depois da labuta na roça, era para lá que muitos iam. Debaixo da paineira havia um grande banco feito de tronco de árvore. Era o ponto de encontro. Sentavam-se à vontade e deixavam o tempo correr.
Entre um cigarro de palha e outro, colocavam a conversa em dia. Falavam do preço da saca de café, da colheita, do tempo que mudava sem avisar. Comentavam também sobre a política do município, cada um com sua opinião, mas sem pressa de terminar a conversa.
E assim ficavam, horas e horas, até o anoitecer.
Naquele tempo, o sítio ainda não tinha energia elétrica nem telefone. A vida era simples. A diversão vinha do rádio de pilha, dos jogos de futebol aos domingos, dos terços e novenas nas casas e da missa na capela do bairro.
Mas o tempo, como sempre, fez o que sabe fazer.
Veio a crise na agricultura, e a colônia foi se esvaziando. Muitos lavradores foram embora — alguns para a cidade, outros para mais longe ainda. As casas ficaram abandonadas. O campo de futebol desapareceu. O movimento de antes virou silêncio.
A capela ainda resiste, de pé. Está lá abandonada. Virou uma chácara ao seu redor.
E a velha paineira também.
Continua lá, no mesmo lugar de sempre, à beira da estrada — como se esperasse, em vão, pelos homens que um dia fizeram dela abrigo e companhia.
Talvez seja isso que o tempo não consegue apagar: certos lugares que, mesmo vazios, continuam cheios de tudo o que já viveram.
Benedito José Rodrigues
Enviado por Benedito José Rodrigues em 04/05/2026