Jose Benedito Rodrigues
Contos, Crônicas
Textos

A volta

A noite cai devagar sobre o sertão.

O céu se enche de estrelas,

e o vento frio atravessa as frestas da velha janela de madeira.

O caboclo permanece sentado na varanda,

com o chapéu nas mãos

e os olhos perdidos na estrada vazia.

O rádio de pilha ainda toca baixinho uma moda antiga.

Daquelas que falam de amores que partiram

e promessas que nunca morreram.

Os cachorros já se acomodaram perto do terreiro.

Os grilos cantam sem pressa.

E a lua clareia o caminho de terra por onde ele tanto espera vê-la voltar.

Mas naquela noite havia algo diferente.

O coração do caboclo estava apertado,

como se a saudade estivesse mais pesada do que nos outros dias.

Ele então se levantou lentamente,

entrou em casa

e abriu uma velha gaveta do armário.

Ali guardava lembranças.

Uma fita do cabelo dela.

Um retrato amarelado pelo tempo.

Uma carta dobrada muitas vezes,

já quase apagada pelas lágrimas.

O caboclo sentou-se à mesa

e começou a ler novamente aquelas palavras decoradas pela dor e pelo amor.

Ela dizia que precisava partir.

Que a vida havia lhe chamado para longe.

Que talvez um dia voltasse.

Talvez.

Essa palavra se tornou a esperança daquele homem.

Os anos passaram,

mas ele nunca deixou de acreditar.

Na manhã seguinte, bem cedo,

o caboclo acordou antes do sol nascer.

Fez café forte no fogão de lenha.

Abriu a janela.

Respirou fundo o cheiro da terra molhada pelo sereno da madrugada.

Foi então que ouviu um som diferente vindo da estrada.

Não era caminhão.

Não era carroça.

Nem motocicleta.

Era a velha jardineira.

Seu coração disparou.

Ele ficou imóvel por alguns segundos,

como se tivesse medo de sonhar acordado.

A buzina ecoou pelo sertão.

Os passarinhos voaram assustados.

O caboclo caminhou até a porteira com passos lentos e trêmulos.

A jardineira parou levantando poeira vermelha pelo caminho.

A porta se abriu devagar.

E dela desceu uma mulher vestida de azul claro,

com os cabelos já tocados pelo tempo

e os olhos carregados de saudade.

Ela também o reconheceu no mesmo instante.

Nenhuma palavra foi dita.

Porque certos amores não precisam de explicação.

O caboclo apenas tirou o chapéu da cabeça.

Os olhos marejaram.

E depois de tantos anos de espera,

o sorriso voltou ao seu rosto pela primeira vez.

Benedito José Rodrigues
Enviado por Benedito José Rodrigues em 07/05/2026
Alterado em 10/05/2026
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