A noite cai devagar sobre o sertão.
O céu se enche de estrelas,
e o vento frio atravessa as frestas da velha janela de madeira.
O caboclo permanece sentado na varanda,
com o chapéu nas mãos
e os olhos perdidos na estrada vazia.
O rádio de pilha ainda toca baixinho uma moda antiga.
Daquelas que falam de amores que partiram
e promessas que nunca morreram.
Os cachorros já se acomodaram perto do terreiro.
Os grilos cantam sem pressa.
E a lua clareia o caminho de terra por onde ele tanto espera vê-la voltar.
Mas naquela noite havia algo diferente.
O coração do caboclo estava apertado,
como se a saudade estivesse mais pesada do que nos outros dias.
Ele então se levantou lentamente,
entrou em casa
e abriu uma velha gaveta do armário.
Ali guardava lembranças.
Uma fita do cabelo dela.
Um retrato amarelado pelo tempo.
Uma carta dobrada muitas vezes,
já quase apagada pelas lágrimas.
O caboclo sentou-se à mesa
e começou a ler novamente aquelas palavras decoradas pela dor e pelo amor.
Ela dizia que precisava partir.
Que a vida havia lhe chamado para longe.
Que talvez um dia voltasse.
Talvez.
Essa palavra se tornou a esperança daquele homem.
Os anos passaram,
mas ele nunca deixou de acreditar.
Na manhã seguinte, bem cedo,
o caboclo acordou antes do sol nascer.
Fez café forte no fogão de lenha.
Abriu a janela.
Respirou fundo o cheiro da terra molhada pelo sereno da madrugada.
Foi então que ouviu um som diferente vindo da estrada.
Não era caminhão.
Não era carroça.
Nem motocicleta.
Era a velha jardineira.
Seu coração disparou.
Ele ficou imóvel por alguns segundos,
como se tivesse medo de sonhar acordado.
A buzina ecoou pelo sertão.
Os passarinhos voaram assustados.
O caboclo caminhou até a porteira com passos lentos e trêmulos.
A jardineira parou levantando poeira vermelha pelo caminho.
A porta se abriu devagar.
E dela desceu uma mulher vestida de azul claro,
com os cabelos já tocados pelo tempo
e os olhos carregados de saudade.
Ela também o reconheceu no mesmo instante.
Nenhuma palavra foi dita.
Porque certos amores não precisam de explicação.
O caboclo apenas tirou o chapéu da cabeça.
Os olhos marejaram.
E depois de tantos anos de espera,
o sorriso voltou ao seu rosto pela primeira vez.