Jose Benedito Rodrigues
Contos, Crônicas
Textos

Sonho de um caboclo

Sonho de um Caboclo

Hoje quero falar de um certo caboclo.

Mas, antes, é preciso defini-lo.

O caboclo é aquele homem nascido da mistura do índio com o branco.

É também o homem simples do sertão, da roça, do interior.

Muitos o veem como alguém de jeito rústico, desconfiado, calado.

Um homem caipira.

Um homem humilde.

Um homem honesto.

É aquele que vive longe da cidade,

que enfrenta dificuldades sem reclamar,

que ama a terra onde nasceu

e carrega no peito o cheiro da chuva e da poeira da estrada.

Mas o caboclo de quem quero falar não era tão rústico assim.

Era trabalhador.

Honesto.

Amável com todos.

Não havia maldade dentro dele.

Gostava de conversar,

cultivava boas amizades

e tinha um coração tranquilo, desses que raramente se encontram.

Certo dia, conheceu o amor da sua vida.

E amou de verdade certa moça.

Com ela viveu momentos felizes,

dias simples que pareciam eternos.

Risos na varanda,

prosa ao cair da tarde,

planos feitos sob o céu estrelado do sertão.

Mas um belo dia ela partiu.

E o mundo daquele caboclo se entristeceu.

Veio o silêncio.

Veio a saudade.

Veio o coração partido.

Sozinho ficou.

Hoje vive sozinho no campo.

A alegria parece ter ido embora.

O sorriso já não nasce fácil em seu rosto queimado de sol.

Ainda assim, não desiste.

Paciente,

ele espera pela volta de sua amada.

Sonha com ela todas as noites.

O caboclo escreve poemas.

Faz canções.

Colhe as mais belas flores do jardim.

Limpa toda a casa.

Passa tinta nova nas paredes.

Liga seu velho rádio de pilha

para ouvir modas sertanejas que falam de amor e saudade.

Carpe o quintal.

Trata dos bichos.

Arruma tudo com entusiasmo,

como se preparasse uma festa de Natal.

Ele sabe que a jardineira vai passar pela estrada.

Então espera.

Fica ansioso.

Ouve ao longe a buzina.

Escuta o ranger da porteira.

O coração dispara dentro do peito cansado.

Mas ela não aparece...

E o caboclo, sentado na varanda,

fica olhando a poeira da estrada sumir no horizonte,

enquanto a saudade, silenciosa,

faz morada definitiva em seu coração.

Benedito José Rodrigues
Enviado por Benedito José Rodrigues em 07/05/2026
Alterado em 10/05/2026
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