Sonho de um Caboclo
Hoje quero falar de um certo caboclo.
Mas, antes, é preciso defini-lo.
O caboclo é aquele homem nascido da mistura do índio com o branco.
É também o homem simples do sertão, da roça, do interior.
Muitos o veem como alguém de jeito rústico, desconfiado, calado.
Um homem caipira.
Um homem humilde.
Um homem honesto.
É aquele que vive longe da cidade,
que enfrenta dificuldades sem reclamar,
que ama a terra onde nasceu
e carrega no peito o cheiro da chuva e da poeira da estrada.
Mas o caboclo de quem quero falar não era tão rústico assim.
Era trabalhador.
Honesto.
Amável com todos.
Não havia maldade dentro dele.
Gostava de conversar,
cultivava boas amizades
e tinha um coração tranquilo, desses que raramente se encontram.
Certo dia, conheceu o amor da sua vida.
E amou de verdade certa moça.
Com ela viveu momentos felizes,
dias simples que pareciam eternos.
Risos na varanda,
prosa ao cair da tarde,
planos feitos sob o céu estrelado do sertão.
Mas um belo dia ela partiu.
E o mundo daquele caboclo se entristeceu.
Veio o silêncio.
Veio a saudade.
Veio o coração partido.
Sozinho ficou.
Hoje vive sozinho no campo.
A alegria parece ter ido embora.
O sorriso já não nasce fácil em seu rosto queimado de sol.
Ainda assim, não desiste.
Paciente,
ele espera pela volta de sua amada.
Sonha com ela todas as noites.
O caboclo escreve poemas.
Faz canções.
Colhe as mais belas flores do jardim.
Limpa toda a casa.
Passa tinta nova nas paredes.
Liga seu velho rádio de pilha
para ouvir modas sertanejas que falam de amor e saudade.
Carpe o quintal.
Trata dos bichos.
Arruma tudo com entusiasmo,
como se preparasse uma festa de Natal.
Ele sabe que a jardineira vai passar pela estrada.
Então espera.
Fica ansioso.
Ouve ao longe a buzina.
Escuta o ranger da porteira.
O coração dispara dentro do peito cansado.
Mas ela não aparece...
E o caboclo, sentado na varanda,
fica olhando a poeira da estrada sumir no horizonte,
enquanto a saudade, silenciosa,
faz morada definitiva em seu coração.