O dia em que o mundo mudou para Priscila. Imagina como pode uma coisa desta natureza. A menina Priscila tinha apenas seis anos quando descobriu que o mundo podia ser cruel. Até então, sua vida cabia dentro de coisas simples: o cheiro do café passando na cozinha, o som distante de um rádio antigo, e a sensação morna de um abraço que, mesmo raro, ainda existia. Havia dias bons — ou pelo menos dias silenciosos o suficiente para parecerem bons. Mas naquela manhã, algo era diferente. O sol entrava pela janela como sempre fazia, desenhando faixas douradas no chão gasto da casa. Tudo parecia igual. E, ainda assim, não estava. Crianças percebem o que os adultos tentam esconder. Não pelos olhos, mas pelo peso no ar. Pelo silêncio que demora mais do que deveria. Pela ausência de palavras que nunca chegam. Priscila sentiu. Não soube explicar, nem teria palavras para isso. Só sabia que algo dentro dela começou a se encolher, como se quisesse se proteger de algo que ainda nem tinha forma. Foi nesse dia que ela aprendeu a ficar quieta. Quieta para não provocar. Quieta para não incomodar. Quieta para não piorar aquilo que já parecia errado. E, sem perceber, começou a desaparecer um pouco de cada vez. Com o passar dos anos, Priscila cresceu — mas não como as outras crianças. Enquanto algumas descobriam o mundo com curiosidade, ela aprendia a observá-lo com cautela. Cada gesto era medido. Cada palavra, pensada antes de existir. Era como se estivesse sempre tentando evitar algo… mesmo sem saber exatamente o quê. O medo virou companhia constante. Não um medo específico, mas um daqueles que se instalam no peito e permanecem ali, silenciosos, como uma sombra que nunca vai embora. Havia noites em que ela acordava sem saber por quê, o coração acelerado, os olhos atentos ao escuro. E havia dias em que tudo parecia pesado demais — até mesmo respirar. Mas ninguém via. Ou talvez ninguém soubesse como ver. Foi nos livros que Priscila encontrou uma saída. Naquelas páginas, o mundo era diferente. As pessoas tinham finais. As dores tinham explicação. E, na maioria das vezes, havia algum tipo de salvação. Ela se agarrava às histórias como quem se agarra a uma promessa. Lia devagar, querendo prolongar o tempo dentro daquele lugar seguro. Às vezes relia as mesmas páginas, não por não entender — mas por não querer voltar. Ali, ela não precisava ter medo. Ali, ela podia existir sem se esconder. Mas a vida fora dos livros não esperava. Os anos trouxeram mudanças — algumas inevitáveis, outras difíceis demais para uma criança compreender. Pessoas iam embora. Outras voltavam diferentes. Palavras eram ditas como se não tivessem peso, mas ficavam. Tudo ficava. Priscila aprendeu cedo que certas marcas não aparecem na pele. Elas se escondem em lugares mais profundos. Quando a notícia da chegada da irmã veio, não houve festa. Houve silêncio. E, dentro dele, algo novo nasceu. Não era alegria. Ainda não. Era outra coisa. Responsabilidade. Pela primeira vez, Priscila sentiu que precisava ser forte — não por si, mas por alguém que ainda nem conhecia. Alguém que, talvez, pudesse viver diferente. Alguém que ela jurou, em silêncio, proteger. Mesmo sem saber como. Mesmo sem nunca ter sido protegida. Naquela noite, deitada em sua cama, com um livro aberto sobre o peito, Priscila não estava lendo. Seus olhos estavam fixos no teto, enquanto pensamentos corriam rápido demais para serem organizados. Ela não sabia exatamente o que estava por vir. Mas sabia de uma coisa: O mundo já tinha mostrado a ela do que era capaz. E, ainda assim, ela continuava ali. Respirando. Resistindo.