A mudança de nossa família para Pacaembu representou muito mais do que uma simples troca de endereço — foi uma travessia emocional, carregada de expectativas, inseguranças e esperança. Lembro-me de quando saímos de Inúbia Paulista: poucas malas, baús e sacos de estopa guardavam os utensílios simples da família, enquanto um silêncio apreensivo acompanhava toda a viagem. Meu pai caminhava à frente, guiando-nos com a firmeza que sempre demonstrou, enquanto minha mãe tentava acalmar os menores, assustados com o desconhecido e despedindo-se, em lágrimas, do pouco que já conheciam.
A chegada ao Jardim Marajá foi marcante. O chão de terra vermelha, o aspecto quase deserto e as poucas casas espalhadas pelos lotes pertencentes ao Sr. Avamor Berlanga Mugnai revelavam um lugar ainda em formação. As moradias do bairro variavam entre simples ranchos de madeira e construções improvisadas com restos de tábuas e tijolos assentados com barro.
A nossa casa foi levantada aos poucos, com as próprias mãos de meu pai e a ajuda generosa dos vizinhos. Recordo-me do som constante dos martelos, do cheiro da madeira fresca e da alegria que sentimos quando o telhado finalmente ficou pronto. Dentro dela, tudo era modesto: o fogão a lenha, que minha mãe dominava com maestria; a mesa feita de tábuas irregulares; os poucos colchões improvisados com palha e tecido. Apesar da simplicidade, havia calor humano. Cada canto daquela casa carregava esforço, dignidade e esperança. A precariedade nunca nos impediu de sentir que aquele era, de fato, um lar.
Augusto e Maria sempre sonharam em ter uma casa própria desde que saíram de Montes Claros, Minas Gerais. Durante anos, pagaram aluguel e viveram de mudanças, daqui para lá e de lá para cá, aguardando o dia em que poderiam chamar uma casa de “nossa”. Quando finalmente conseguiram um terreno no Jardim Marajá, começaram a erguer sua moradia pouco a pouco, tijolo por tijolo, com muito esforço e perseverança.
Naquela época, não havia fogão a gás, geladeira nem televisão. As paredes recebiam apenas uma simples caiação branca; portas e janelas eram de madeira, e a mobília, bastante modesta. Ainda assim, naquela casa nunca faltou o essencial: um coração sempre aberto para acolher familiares, parentes, amigos e vizinhos.
Quando um novo morador chegava ao Jardim Marajá, Augusto e Maria eram os primeiros a estender a mão. Se alguém precisava de ajuda com as crianças, de uma xícara de café, açúcar, farinha de mandioca ou auxílio para organizar a casa, Maria logo oferecia seu apoio hospitaleiro. Em pouco tempo, a casa deles tornou-se um ponto de encontro, um lugar onde as pessoas se sentiam bem-vindas, onde o café estava sempre pronto e a escuta permanecia disponível por horas a fio.
Certa vez, um vizinho, admirado com tanta bondade e generosidade, brincou:
— Vocês têm certeza de que essa casa é de vocês? Parece mais de todo mundo!
Augusto e Maria sorriram e responderam:
— Esta casa é nossa, sim. Mas o lar… esse a gente constrói junto.
O Jardim Marajá nasceu da união de todos os que ali chegaram. A ausência de infraestrutura — sem luz, sem água encanada e sem esgoto — tornava necessária aquilo que hoje chamamos de comunidade. As famílias se apoiavam de maneira espontânea e sincera.
Recordo-me de quando faltou água certa manhã: um vizinho mais distante ofereceu a sua, retirada de um poço fundo que ele próprio havia cavado. Em outros momentos, quando os barrancos atrás das casas ameaçavam desabar durante as chuvas, todos se reuniam para ajudar. As mulheres emprestavam farinha, café, açúcar e querosene para abastecer as lamparinas. As crianças brincavam juntas o dia inteiro, como se fossem uma única família.
Nossos vizinhos eram os japoneses da família Ueno, que permaneceram ao nosso lado ao longo dos anos. Os homens ajudavam-se nas plantações, nas colheitas, nas construções e até nas mudanças dos recém-chegados.
Naquele tempo, a solidariedade não era apenas um gesto de bondade — era uma forma de sobrevivência. E talvez tenha sido justamente isso que transformou aquele bairro tão simples em um lugar profundamente humano, onde cada dificuldade compartilhada fortalecia os laços entre as pessoas e fazia nascer um verdadeiro sentimento de pertencimento.