Jose Benedito Rodrigues
Contos, Crônicas
Textos

O aroma de café

O Aroma de Café. O tempo passa, mas há coisas que a gente nunca esquece. O cheiro do café é uma delas. Meu pai, um baiano de natureza, sempre foi daqueles homens que faziam de tudo para manter a casa e sustentar a família, custasse o que custasse. Nossa vida era simples, como simples também era o padrão de vida daquele tempo. Mesmo diante das dificuldades, das lutas e das tantas cabeçadas que a vida dava, a fé e a religiosidade eram as forças que moviam todos nós. As tarefas da casa já pareciam naturalmente divididas. Minha mãe, ainda muito jovem, cuidava dos afazeres domésticos e das crianças. Meu pai assumia os trabalhos de fora, aqueles que podiam render algum dinheiro para as despesas da família. Não tinha profissão definida nem estudo avançado, mas tinha coragem e disposição. Foi doceiro, pipoqueiro, poceiro, fosseiro, verdureiro, lavrador e lenhador. Fazia o que aparecesse, porque a necessidade não espera. Naquele tempo eu ainda era menino, nem havia completado dez anos. Morávamos afastados do centro, em um bairro que vi nascer e crescer, lugar onde passei toda a minha infância. A cidade era pequena, quase uma promessa de futuro. Faltavam ruas, avenidas, saneamento básico. A rede de água e esgoto começava a surgir devagar. A energia elétrica também estava chegando, e o gerador ficava no município vizinho. Nossa casa era muito simples. Não havia gás encanado nem fogão moderno. Na cozinha reinava um grande fogão a lenha. Todas as manhãs, bem cedo, eu acordava com o som do machado de meu pai cortando a lenha. Aquela batida seca sobre o tronco funcionava como um despertador. Era o anúncio de mais um dia começando. A lenha rachada abastecia o fogão. Quando a madeira estava seca, queimava fácil, soltando aquele cheiro forte de fumaça boa que tomava a cozinha inteira. Depois que o fogo se transformava em brasas vivas, chegava a hora de colocar água para ferver num grande bule de alumínio. O coador era feito de flanela branca, preso numa argola de arame grosso. Meu pai colocava ali várias colheres de café moído na hora. Então a água quente passava devagar pelo pó escuro, e o aroma se espalhava pela casa inteira. Era um cheiro forte, quente, acolhedor. Cheiro de amanhecer. Cheiro de família reunida. Cheiro de luta e esperança. Ainda hoje, depois de tantos anos, basta sentir o perfume de um café recém passado para que tudo volte à memória: o som do machado, o calor do fogão a lenha, a simplicidade da casa e a presença silenciosa de meu pai começando mais um dia de trabalho. Ainda dá para sentir o aroma do café.

Benedito José Rodrigues
Enviado por Benedito José Rodrigues em 20/05/2026
Alterado em 20/05/2026
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