Jose Benedito Rodrigues
Contos, Crônicas
Textos

O café estava pronto

Nossa casa era muito simples. Não havia gás encanado nem fogão moderno. Na cozinha reinava um grande fogão a lenha.

Todas as manhãs, bem cedo, eu acordava com o som do machado de meu pai cortando a lenha. Aquela batida seca sobre o tronco funcionava como um despertador.

Era o anúncio de mais um dia começando. A lenha rachada abastecia o fogão. Quando a madeira estava seca, queimava fácil, soltando aquele cheiro forte de fumaça boa que tomava a cozinha inteira.

Depois que o fogo se transformava em brasas vivas, chegava a hora de colocar água para ferver num grande bule de alumínio.

O coador era feito de flanela branca, preso numa argola de arame grosso. Meu pai colocava ali várias colheres de café moído na hora. Então a água quente passava devagar pelo pó escuro, e o aroma se espalhava pela casa inteira.

O café estava pronto. Minha mãe pegava as canecas esmaltadas, já um pouco gastas pelo tempo e pelo uso diário. Algumas tinham pequenas lascas na borda, outras já haviam perdido o brilho havia muitos anos. Mesmo assim, eram as melhores que tínhamos.

Sobre a mesa simples de madeira, ela colocava também um pedaço de pão amanhecido, mandioca cozida ou, quando o dia era mais generoso, um pouco de broa de milho. A fumaça do café subia lentamente, dançando no ar frio da manhã.

Meu pai gostava de beber o primeiro gole em silêncio. Sentava-se perto do fogão, segurando a caneca com as duas mãos calejadas. Parecia que naquele pequeno instante ele descansava a alma antes de enfrentar mais um dia pesado.

Seus olhos ficavam perdidos no fogo, como quem conversava com os próprios pensamentos. Eu observava tudo em silêncio. Naquele tempo, menino aprende mais olhando do que ouvindo. E foi assim que aprendi sobre responsabilidade, dignidade e coragem.

Meu pai quase nunca fazia discursos ou dava conselhos longos. A vida dele era o próprio ensinamento. Depois do café, o dia começava de verdade. Às vezes ele saía cedo com a enxada nos ombros para trabalhar na roça. Em outros dias empurrava um carrinho de verduras pelas ruas da cidade.

Havia tempos em que fazia doces para vender, e eu me lembro do cheiro do açúcar queimando no tacho de cobre. Em outras ocasiões aparecia algum serviço pesado: cavar poço, abrir fossa, cortar lenha. Trabalho duro nunca faltava para quem precisava sobreviver.

Minha mãe acompanhava tudo com uma força silenciosa. Enquanto cuidava da casa e dos filhos, ainda encontrava tempo para rezar. A fé dela parecia morar em cada canto daquela casa simples. Havia sempre uma imagem de santo sobre algum móvel, um terço pendurado na parede e uma lamparina acesa em noites difíceis.

E as noites difíceis eram muitas. Quando chovia forte, a água escorria pelo terreiro e fazia barulho sobre o telhado. Às vezes faltava comida. Às vezes faltava dinheiro. Mas nunca faltou união. Nunca faltou respeito. Nunca faltou café passado no fogão a lenha para aquecer o corpo e fortalecer a esperança.

Hoje percebo que aquele café era mais do que uma bebida. Era quase um ritual. Era o momento em que a família se encontrava antes de cada batalha diária. Era uma pausa pequena, mas cheia de significado.

O aroma do café misturado à fumaça da lenha carregava o cheiro da nossa própria história. E talvez seja por isso que certas lembranças nunca envelhecem. Porque existem memórias que não ficam apenas na cabeça.

Elas permanecem vivas no coração, escondidas em pequenos detalhes da vida. Um cheiro. Um som. Uma manhã fria. Um velho fogão a lenha aceso antes do sol nascer. E toda vez que sinto o aroma de café recém passado, ainda consigo voltar naquele tempo. Volto a ser menino outra vez.

Benedito José Rodrigues
Enviado por Benedito José Rodrigues em 20/05/2026
Alterado em 30/05/2026
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