As arvores
**As Árvores**
Desta vez,
eu estava ali,
sentado à sombra delas.
Havia naquele lugar
uma paz antiga,
dessas que silenciam o coração
e fazem o tempo caminhar devagar.
Tudo ao redor
me levava ao passado.
Agora havia tempo de sobra
para observar,
para lembrar,
para sentir.
E foi então
que me veio à memória
a pequena e verdadeira história
daquelas árvores.
Porque árvores também possuem destinos,
também carregam marcas,
também conhecem perdas.
No princípio eram quatro.
Lembro-me bem:
foram plantadas no mesmo dia,
cada uma com sua pequena muda
plantada em um balainho simples.
Uma ao lado da outra.
Na mesma distância.
Sob o mesmo cuidado.
Sob o mesmo céu.
Sob o mesmo tempo.
E cresceram juntas.
Os anos passaram,
e seus troncos ganharam força.
As raízes mergulharam fundo
na busca silenciosa pela água da terra.
Os galhos se abriram ao vento,
as folhas dançaram sob as chuvas,
ventania, frio, calor,
e logo alcançaram
a altura dos postes de luz.
Pareciam iguais.
Mesma cor.
Mesmo formato de planta.
Mas cada uma guardava
sua própria alma.
Então o tempo,
que constrói,
também começou a levar.
E leva sem avisar.
Uma delas foi cortada.
Restou apenas o tronco,
ferido e imóvel.
Agora sem vida.
Depois secou.
Não brotou mais.
E das quatro,
restaram três.
Vieram as podas.
Os galhos caíram.
As folhas se espalharam pelo chão.
A sombra diminuiu.
O que antes era beleza e abrigo
transformou-se quase
numa escultura sem forma,
num desenho incompleto daquilo que um dia foi inteiro.
E olhando para aquelas árvores,
eu compreendi:
assim também é a vida.
O tempo nos poda.
As perdas nos atravessam.
Partes de nós caem ao chão.
E muitas vezes seguimos adiante
sem entender exatamente
o que nos tornamos.
Sem definição.
Mas ainda de pé.
— **Benedito José Rodrigues**
Benedito José Rodrigues
Enviado por Benedito José Rodrigues em 20/05/2026