Jose Benedito Rodrigues
Contos, Crônicas
Textos

Naquela tarde de sábado a feira ia se desfazendo

Naquele fim de tarde, enquanto a feira começava lentamente a se desfazer, eu ainda observava aquele menino.

O sol já perdia sua força entre os fios das torres elétricas, os feirantes recolhiam as lonas, juntavam as caixas vazias e contavam, em silêncio, aquilo que conseguiram vender durante o dia. Alguns voltavam satisfeitos. Outros, nem tanto.

Mas o menino permanecia ali.

Com os pés cansados, a roupa simples marcada pela terra e o rosto molhado de suor, continuava tentando vender os últimos produtos que ainda restavam sobre a banca improvisada.

Havia em seus olhos algo difícil de explicar.

Não era apenas cansaço.

Era responsabilidade.

Responsabilidade de gente grande carregada dentro de um corpo ainda pequeno demais para suportar o peso da vida.

Em determinado momento, uma senhora se aproximou devagar.

Olhou os legumes já murchando pelo calor do dia e perguntou o preço.

O menino respondeu com educação.

Ela percebeu que ele estava exausto e tentou diminuir ainda mais o valor. Talvez por costume. Talvez porque também enfrentasse suas próprias dificuldades.

O menino abaixou os olhos por alguns segundos.

Depois respondeu com uma sinceridade desarmante:

— Moça, se eu vender mais barato, hoje lá em casa a gente janta menos.

A mulher ficou em silêncio.

E eu também.

Porque existem frases que não cabem dentro de uma simples conversa.

Frases que revelam a dureza de um país inteiro.

Ela então abriu a bolsa novamente, pegou algumas moedas a mais e entregou ao menino.

— Fique com o troco.

Ele sorriu.

Um sorriso pequeno, cansado, mas verdadeiro.

Daqueles que nascem quando alguém consegue sobreviver mais um dia.

Enquanto guardava o dinheiro cuidadosamente no bolso, olhou para os produtos restantes e voltou a anunciar com a mesma força:

— Olha a verdura fresquinha!

E foi naquele instante que entendi algo importante.

A pobreza pode tirar muitas coisas de alguém: o conforto, as oportunidades, os estudos, a infância tranquila.

Mas ainda assim existem pessoas que conseguem preservar a dignidade.

Aquele menino não pedia pena.

Não reclamava da vida.

Não esperava milagres.

Ele apenas lutava.

E talvez seja justamente isso que tanto nos falta aprender: a coragem silenciosa daqueles que continuam seguindo em frente, mesmo quando o mundo parece já ter desistido deles.

Benedito José Rodrigues
Enviado por Benedito José Rodrigues em 23/05/2026
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