Jose Benedito Rodrigues
Contos, Crônicas
Textos

A chuva chegou

A chuva chegou alguns minutos depois.

Primeiro veio aquele vento fino, quase tímido, levantando poeira no terreiro e balançando as folhas secas das árvores perto do cemitério. Depois o céu foi ficando pesado, escuro, como se carregasse também as lembranças de cada pessoa que estava ali naquele velório. O povo começou a se ajeitar, alguns correndo para debaixo da varanda, outros abrindo guarda-chuva às pressas. Eu permaneci parado por alguns instantes olhando para minha tia.

Ela ainda sorria.

Mas era um sorriso distante, como quem estava em outro tempo. Talvez em alguma tarde antiga no sítio, preparando café no fogão de lenha. Talvez lembrando de alguém da infância. Talvez não lembrando de nada. Até hoje eu não sei o que se passa dentro da cabeça de uma pessoa quando as memórias começam a desaparecer devagarinho.

A verdade é que a memória sustenta muito daquilo que somos.

A gente pensa que vive apenas de carne, osso e respiração, mas não. Somos feitos também das vozes que guardamos, dos rostos conhecidos, dos caminhos da infância, dos cheiros da cozinha, das histórias repetidas em volta da mesa. Quando a memória vai embora, parece que uma parte da existência vai junto.

Naquele dia eu voltei para casa pensando nisso.

Lembrei do meu avô chegando do roçado no fim da tarde. Lembrei das noites sem energia elétrica, quando o silêncio da zona rural era quebrado apenas pelo canto dos grilos e pelo barulho distante de algum cachorro latindo. Lembrei da minha mãe chamando todo mundo para jantar. Coisas simples. Pequenas coisas que, no fundo, sustentam uma vida inteira.

Talvez seja por isso que o Alzheimer doa tanto em quem observa.

Porque não é apenas o esquecimento de nomes ou datas. É como assistir, aos poucos, alguém se afastando sem sair do lugar. O corpo permanece ali, sentado na cadeira, olhando pela janela, respirando normalmente. Mas alguma coisa já começou a partir.

E quem fica sofre em silêncio.

A filha que repete a mesma resposta dez vezes no mesmo dia. O neto que percebe que já não é reconhecido. O marido que vê desaparecer a companheira de décadas. São lutos pequenos e contínuos, acontecendo antes mesmo da despedida definitiva.

Depois daquela conversa no velório, nunca mais consegui olhar da mesma forma para pessoas idosas que repetem histórias ou esquecem detalhes simples. Hoje entendo que cada lembrança preservada é quase uma vitória contra o tempo.

Certa vez eu estive lá na casa dela.

Na sala uma cama maca de hospital.

Ela não mais mexia e nem falava. Não conhecia ninguém. Já estava em estágio já avançado.

Foi a ultima vez que a vi.

Minha tia "Zuzu" já se foi.

Mas, ironicamente, enquanto ela esquecia de todos nós, nós começávamos a lembrar dela com ainda mais força. Talvez a memória também tenha dessas coisas: quando desaparece em alguém, renasce em quem permanece.

E toda vez que o céu escurece antes de uma chuva, eu ainda me recordo daquela tarde de agosto, daquele sorriso tranquilo e daquela pergunta simples que até hoje ecoa dentro de mim:

— Quem é você?

Benedito José Rodrigues
Enviado por Benedito José Rodrigues em 25/05/2026
Alterado em 25/05/2026
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