E ali, perto da bilheteria, estava ela.
Usava saia azul-escuro e segurava alguns cadernos junto ao peito. Os cabelos negros caíam sobre os ombros. Ela olhava para o cartaz do filme como quem sonhava com um mundo distante.
Eu a reconheceria em qualquer tempo.
Era a primeira menina por quem me apaixonei.
Fiquei parado por alguns instantes, olhando para aquela imagem que parecia ter saído intacta de algum pedaço escondido da memória. Era impossível. Eu sabia. Mas, ao mesmo tempo, tudo parecia tão real que até o cheiro da pipoca misturado ao perfume das flores da praça voltou à minha lembrança.
Ela continuava ali, diante da bilheteria do velho Cine Pedutti.
O movimento das pessoas passava ao redor, os jovens riam alto, um carro antigo estacionava perto do meio-fio e, ao longe, alguém cantarolava uma música dos Bee Gees que tocava em alguma vitrola da sorveteria.
Meu coração disparou como naquela época.
Naqueles anos, eu era apenas um rapaz tímido, filho de gente simples, com os bolsos quase sempre vazios e a cabeça cheia de sonhos. Estudava durante o dia e, quando podia, ajudava meu pai em pequenos serviços. Ir ao cinema aos sábados já era um acontecimento especial.
E ela aparecia quase todos os fins de semana.
Nunca vinha sozinha. Sempre acompanhada de uma amiga ou de alguma prima. Entrava sorrindo, cumprimentava algumas pessoas e seguia para as primeiras filas. Eu fingia prestar atenção no filme, mas, na verdade, passava boa parte da sessão olhando discretamente para ela.
Nunca tive coragem de conversar direito.
Naquele tempo, tudo era mais difícil para os rapazes tímidos. Não existia celular, mensagem ou rede social. A coragem precisava nascer ali, cara a cara, no susto do momento.
E a minha coragem quase nunca aparecia.
Mas naquela noite foi diferente.
Talvez fosse a música. Talvez fosse o movimento da praça. Ou talvez porque a juventude acredita que o tempo nunca vai acabar.
Respirei fundo e atravessei a avenida.
Lembro até hoje do barulho dos meus passos sobre os paralelepípedos.
Quando me aproximei, ela olhou para mim e sorriu de leve, como se já soubesse que eu estava tentando criar coragem fazia muito tempo.
— Você também veio assistir ao filme? — ela perguntou.
A pergunta era simples, mas minhas pernas ficaram bambas.
— Vim... — respondi quase gaguejando. — Dizem que esse filme é bom.
Ela sorriu novamente.
E naquele instante, para mim, nenhuma estrela de cinema brilhava mais do que aquele sorriso.
Entramos juntos.
A sala estava cheia. O velho ventilador de teto fazia um barulho constante e o projetor começava a iluminar a cortina branca. Sentamos lado a lado, enquanto as luzes iam se apagando devagar.
Lá fora, a cidade seguia crescendo sem perceber que, dentro daquele cinema simples, duas vidas começavam a guardar uma lembrança que atravessaria décadas.
O filme começou.
Mas eu já não conseguia mais prestar atenção em John Travolta nem na dança. Meu pensamento estava inteiro ao lado dela, sentindo o perfume suave que vinha dos seus cabelos e tentando disfarçar o nervosismo cada vez que nossas mãos quase se tocavam no braço da poltrona de madeira.
E foi justamente ali, no escuro daquele cinema antigo, que aconteceu a cena que eu jamais esqueceria pelo resto da vida.