Jose Benedito Rodrigues
Contos, Crônicas
Textos

Montes Claros

Quando o sol começava a nascer sobre os morros secos do sertão mineiro, Montes Claros despertava devagar, quase em silêncio. O cantar dos galos misturava-se ao ranger das rodas das carroças e ao tropel compassado dos animais que cruzavam as ruas de terra ainda úmidas do sereno da madrugada.

Os homens saíam cedo para as feiras e para os serviços das fazendas. Vestiam roupas simples, chapéus de aba larga e carregavam no rosto as marcas do sol forte do norte de Minas. As mulheres cuidavam das casas, preparavam o café no fogão de lenha e varriam os terreiros enquanto as crianças corriam descalças pelas ruas, brincando sem pressa, como se o tempo fosse eterno.

Naqueles dias, a vida parecia caminhar no ritmo das estações. Quando vinha a seca, o povo aprendia a suportar o sofrimento com resignação. Quando a chuva chegava, era quase uma festa silenciosa, recebida como bênção divina. O sertanejo tinha uma fé firme, dessas que resistem à poeira, à distância e às dificuldades.

À tardinha, os moradores costumavam se reunir nas portas das casas. Conversavam sobre a vida, sobre a política distante do Rio de Janeiro, sobre as notícias trazidas por viajantes e tropeiros. Muitos sonhavam com a chegada definitiva da ferrovia, imaginando que os trilhos trariam progresso, comércio e novas oportunidades para a cidade.

A igreja permanecia como o coração de tudo. O sino chamava para as missas, para os batizados, casamentos e despedidas. Ali se encontravam os ricos e os pobres, os fazendeiros e os trabalhadores, unidos pelo mesmo sentimento de esperança.

As noites eram escuras e tranquilas. Sem a claridade elétrica dos tempos modernos, o céu parecia mais próximo da terra. As estrelas brilhavam intensamente sobre a cidade pequena, iluminando os telhados de barro e os caminhos silenciosos do sertão.

E assim seguia Montes Claros em 1924: simples, poeirenta, religiosa e cheia de sonhos. Uma cidade ainda pequena, mas carregando dentro de si a esperança de um futuro maior, que o tempo, lentamente, haveria de construir.

Benedito José Rodrigues
Enviado por Benedito José Rodrigues em 27/05/2026
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