Jose Benedito Rodrigues
Contos, Crônicas
Textos
Sinhá Vitória
Ela era Sinhá Vitória!

Uma grande guerreira que já nascera predestinada. Sim, às vezes nascemos predestinados à pobreza.

Nasceu naquele sertão, em meio a um ambiente inóspito. Pense em um lugar seco, sem verde, sem esperança.

O sertão nordestino — região de miséria, fome, seca e abandono. Esquecida por Deus e pelos governantes. Estes só aparecem quando precisam dos votos.

É ali mesmo, no sertão nordestino, que milhões de pessoas nascem, crescem, sofrem e morrem sem perspectiva de um futuro digno. Um mundo abandonado.

Sinhá Vitória era esse o nome de batismo daquela grande guerreira. Guerreira, sim. Porque sobreviver naquele ambiente já era uma batalha diária.

Filha de pais nordestinos, crescera órfã.

Conheceu desde cedo as dificuldades e os infortúnios de uma vida marcada pela seca.

Casou-se e tornou-se mãe. Uma mãe impaciente às vezes, mas zelosa.

Tinha pouco estudo — e isso pouco importava naquele lugar esquecido.

Mas sabia contar.

Aprendera a lidar com as adversidades.

Tinha clareza da própria situação.

E, mesmo em meio ao sofrimento, ainda enxergava o futuro. Mas pobre tinha futuro?

Apesar das contrariedades, sabia transmitir paz. Tinha fé e confiança.

— Meu Padim Ciço há de ajudar.

Só que ali, naquele lugar, não havia jeito.

Não havia futuro.

Sofreria demais com a seca, com a terra rachada, com aquele sol de lascar.

Faltaria comida.

Faltaria água.

Faltaria chuva.

Faltaria terra.

Faltaria tudo.

Que “vidas secas” eram aquelas.

Então restava partir.

Deixar o chão.

Deixar a terra.

Deixar as raízes.

Mas precisava sair dali.

Não havia outro jeito.

Era preciso fugir da seca.

Já sofrera demais.

Pegaria um pau de arara.

Depois, a jardineira.

E seguiria rumo a São Paulo.

Em busca de vida.

Em busca de esperança.
Benedito José Rodrigues
Enviado por Benedito José Rodrigues em 28/05/2026
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