Jose Benedito Rodrigues
Contos, Crônicas
Textos

Uma viagem sem fim

A viagem parecia não ter fim.

O pau de arara seguia levantando poeira pelas estradas secas do Nordeste. O caminhão velho gemia nas subidas, sacudia nas descidas e carregava gente amontoada na carroceria: homens, mulheres, crianças, trouxas de roupas, panelas velhas e sonhos apertados dentro do peito.

Sinhá Vitória levava os filhos agarrados junto ao corpo. O menor chorava de fome e calor. O outro olhava tudo em silêncio, com os olhos arregalados, como se quisesse entender aquele mundo.

O marido seguia calado.

O sertanejo aprende cedo a sofrer quieto.

De vez em quando alguém puxava uma conversa:

— Dizem que em São Paulo tem muito serviço pra todo mundo.

Outro respondia:

— Dizem também que lá o frio é demais e chega a corta os ossos.

Mas ninguém voltava atrás. Voltar pra onde?

Pior que o frio era a fome.

Pior que a distância era permanecer naquele sertão esquecido por Deus e pelos homens que governam esse país.

À noite, quando o caminhão parava em algum canto da estrada, o povo descia devagar, esticando as pernas cansadas. Faziam café ralo em fogareiro tudo improvisado. Dividiam farinha, rapadura e um pedaço de pão duro.

Mesmo na pobreza, o nordestino sabia repartir. Não tinham o que fazer pois estavam todos no mesmo barco, ou seja, no mesmo pau-de-arara.

Sinhá Vitória olhava para o céu estrelado. O mesmo céu do sertão. As mesmas estrelas que iluminavam sua terra distante.

Sentia saudade antes mesmo de partir de verdade.

Saudade da casinha de barro.

Do terreiro.

Do cheiro da terra molhada quando raramente chovia.

Saudade até da seca.

Porque a gente também sente falta daquilo que nos fez sofrer.

Depois de muitos dias, chegaram à estação onde pegariam a jardineira rumo a São Paulo.

Quando viu aquele movimento de gente, ônibus, barulho e fumaça, Sinhá Vitória apertou forte a mão do filho.

Nunca tinha visto tanta gente junta.

Parecia outro mundo.

Dentro dela moravam dois sentimentos.

O medo.

E a esperança.

A jardineira seguia pela estrada longa. Aos poucos, a paisagem mudava. O verde começava a aparecer aqui e ali. Algumas árvores maiores. Casas diferentes. Postes de luz.

Os filhos olhavam tudo admirados.

— Mainha... aqui tem água demais...

Ela não respondeu.

Olhou pela janela em silêncio.

Os olhos marejaram.

Lembrou da terra rachada do sertão.

Lembrou das caminhadas carregando lata d’água na cabeça.

Lembrou da fome escondida atrás do sorriso.

Naquele instante compreendeu uma coisa:

O retirante nunca abandona sua terra por vontade.

Ele parte porque a vida o expulsa.

E assim, cansada, sofrida, mas ainda de pé, Sinhá Vitória seguia viagem.

Levando na bagagem pouca roupa.

Mas carregando dentro do peito a coragem de um povo inteiro.

Benedito José Rodrigues
Enviado por Benedito José Rodrigues em 28/05/2026
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