A chegada em São Paulo
Quando a jardineira finalmente entrou em São Paulo, Sinhá Vitória sentiu o coração apertar.
Nunca imaginara existir uma cidade daquele tamanho.
Era fumaça pra todo lado.
Carros sem fim.
Prédios enormes parecendo tocar o céu.
Gente andando depressa, como se o mundo estivesse sempre atrasado.
Os meninos olhavam assustados pelas janelas.
Tudo era diferente.
Tudo era grande demais.
Quando chegaram ao Terminal Rodoviário do Tietê, Sinhá Vitória ficou parada por alguns instantes, tentando entender aquele movimento.
Era gente chegando.
Era gente partindo.
Malas.
Sacolas.
Crianças chorando.
Alto-falantes anunciando destinos que ela nunca ouvira falar.
Parecia uma cidade dentro de outra cidade.
Ela apertou firme a trouxa de roupas junto ao peito.
O marido carregava uma mala velha de papelão amarrada com corda.
Os filhos andavam agarrados na barra do vestido da mãe, com medo de se perder.
Sinhá Vitória sentiu medo.
Um medo grande.
Maior que o sertão.
Maior que a seca.
Ali ninguém conhecia ninguém.
Ninguém olhava pra ninguém.
O povo passava correndo, indiferente à dor dos retirantes que chegavam do Nordeste trazendo apenas esperança e necessidade.
Ela olhou para o marido:
— E agora?
O homem enxugou o suor da testa e respondeu baixo:
— Agora é começar a vida.
Mas começar a vida onde?
Dormir onde?
Comer o quê?
Trabalhar em quê?
Naquele instante, Sinhá Vitória percebeu que a viagem não terminara.
A verdadeira luta começava ali.
Do lado de fora do terminal, o frio paulistano cortava o rosto.
Ela estranhou aquele vento gelado.
No sertão, o sofrimento vinha do calor.
Ali, até o frio parecia machucar.
Os meninos tremiam.
Ela os abraçou forte.
Um homem de boné aproximou-se devagar.
Tinha sotaque nordestino também.
— Vocês vieram da Paraíba? Do Ceará?
— Viemos de Pernambuco — respondeu o marido.
O homem balançou a cabeça devagar, como quem entendia tudo sem precisar ouvir mais nada.
— Tem um pessoal lá no Brás que ajuda os recém-chegados. Às vezes aparece serviço em obra.
Sinhá Vitória sentiu um pequeno alívio.
Em terra estranha, ouvir um sotaque parecido era quase encontrar um parente.
Seguiram devagar pela rodoviária.
Cansados.
Com fome.
Com medo.
Mas ainda de pé.
Porque o nordestino aprende cedo uma coisa:
Pode perder quase tudo na vida.
Só não pode perder a coragem.
Benedito José Rodrigues
Enviado por Benedito José Rodrigues em 28/05/2026