Jose Benedito Rodrigues
Contos, Crônicas
Textos

Em terras de São Paulo

Sinhá Vitória em São Paulo

Na rodoviária do Tietê

desceu com os pés cansados,

uma trouxa de roupa,

dois meninos assustados

e o coração apertado.

Trazia o sertão nos olhos,

a seca na lembrança,

o cheiro da terra quente

e uma réstia de esperança.

São Paulo era gigante.

Prédios riscavam o céu.

O povo corria apressado

como formiga em papel.

Sinhá Vitória parou.

Olhou tanta iluminação.

Nunca vira tanta riqueza

misturada com solidão.

O frio cortava a pele.

O vento feria o rosto.

No sertão queimava o sol,

ali era o frio imposto.

Os filhos tremiam quietos.

A fome doía igual.

Mudava apenas a paisagem,

mas a pobreza era fatal.

Dormiu em quarto apertado,

num cortiço do Brás.

Dividindo o pouco espaço

com retirantes iguais.

De manhã bem cedo acordava

antes mesmo do sol nascer.

Lavava roupa pra madame,

pra família sobreviver.

O marido seguia pra obra,

misturando areia e cimento.

Carregando nas costas o peso

do próprio sofrimento.

E assim os dias passavam

na fumaça da cidade.

Mas Sinhá Vitória guardava

a fé e a dignidade.

À noite olhava as estrelas

entre fios e avião.

E lembrava do céu imenso

do distante sertão.

Sentia saudade da terra,

mesmo da terra sofrida.

Porque o chão da gente pobre

também é parte da vida.

Mas nunca perdeu a coragem.

Nunca deixou de lutar.

Pois o nordestino carrega

o dom de recomeçar.

E Sinhá Vitória seguia,

entre tristeza e labuta,

feito raiz de mandacaru

que nasce firme na luta.

Benedito José Rodrigues
Enviado por Benedito José Rodrigues em 28/05/2026
Alterado em 28/05/2026
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