Sinhá Vitória em São Paulo
Na rodoviária do Tietê
desceu com os pés cansados,
uma trouxa de roupa,
dois meninos assustados
e o coração apertado.
Trazia o sertão nos olhos,
a seca na lembrança,
o cheiro da terra quente
e uma réstia de esperança.
São Paulo era gigante.
Prédios riscavam o céu.
O povo corria apressado
como formiga em papel.
Sinhá Vitória parou.
Olhou tanta iluminação.
Nunca vira tanta riqueza
misturada com solidão.
O frio cortava a pele.
O vento feria o rosto.
No sertão queimava o sol,
ali era o frio imposto.
Os filhos tremiam quietos.
A fome doía igual.
Mudava apenas a paisagem,
mas a pobreza era fatal.
Dormiu em quarto apertado,
num cortiço do Brás.
Dividindo o pouco espaço
com retirantes iguais.
De manhã bem cedo acordava
antes mesmo do sol nascer.
Lavava roupa pra madame,
pra família sobreviver.
O marido seguia pra obra,
misturando areia e cimento.
Carregando nas costas o peso
do próprio sofrimento.
E assim os dias passavam
na fumaça da cidade.
Mas Sinhá Vitória guardava
a fé e a dignidade.
À noite olhava as estrelas
entre fios e avião.
E lembrava do céu imenso
do distante sertão.
Sentia saudade da terra,
mesmo da terra sofrida.
Porque o chão da gente pobre
também é parte da vida.
Mas nunca perdeu a coragem.
Nunca deixou de lutar.
Pois o nordestino carrega
o dom de recomeçar.
E Sinhá Vitória seguia,
entre tristeza e labuta,
feito raiz de mandacaru
que nasce firme na luta.