Jose Benedito Rodrigues
Contos, Crônicas
Textos

Nas ruas de Montes Claros

Nas ruas de terra de Montes Claros

o vento espalhava poeira e lembranças.

O sino da igreja chamava o povo

como quem chama filhos para casa.

As carroças passavam lentamente,

rangendo histórias pelas madrugadas.

Os burros seguiam em tropas compridas,

levando mercadorias, sonhos e cansaços.

O sertão era duro.

O sol queimava sem piedade.

Mas havia uma esperança teimosa

morando nos olhos daquele povo.

Na feira livre, o cheiro do milho,

da carne seca e do couro curtido

misturava-se às vozes dos feirantes

e ao barulho simples da vida.

As crianças corriam descalças,

inventando felicidade no barro.

Os velhos contavam causos antigos

de assombração, seca e valentia.

À noite, os lampiões tremiam nas esquinas

como estrelas cansadas da terra.

E o céu enorme do norte de Minas Gerais

abria seu silêncio sobre a cidade.

Cada casa de adobe guardava

um pedaço humilde do sertão.

Fogão de lenha, café forte,

orações baixas ao pé da cama.

E assim seguia a pequena cidade,

entre a fé e a poeira do caminho,

esperando o futuro chegar nos trilhos

da tão sonhada ferrovia.

Porque o tempo passa devagar no sertão,

mas nunca deixa de caminhar.

E aquelas ruas simples de 1924

já carregavam dentro delas

a semente da cidade que haveria de nascer.

Benedito José Rodrigues
Enviado por Benedito José Rodrigues em 28/05/2026
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