Nas ruas de terra de Montes Claros
o vento espalhava poeira e lembranças.
O sino da igreja chamava o povo
como quem chama filhos para casa.
As carroças passavam lentamente,
rangendo histórias pelas madrugadas.
Os burros seguiam em tropas compridas,
levando mercadorias, sonhos e cansaços.
O sertão era duro.
O sol queimava sem piedade.
Mas havia uma esperança teimosa
morando nos olhos daquele povo.
Na feira livre, o cheiro do milho,
da carne seca e do couro curtido
misturava-se às vozes dos feirantes
e ao barulho simples da vida.
As crianças corriam descalças,
inventando felicidade no barro.
Os velhos contavam causos antigos
de assombração, seca e valentia.
À noite, os lampiões tremiam nas esquinas
como estrelas cansadas da terra.
E o céu enorme do norte de Minas Gerais
abria seu silêncio sobre a cidade.
Cada casa de adobe guardava
um pedaço humilde do sertão.
Fogão de lenha, café forte,
orações baixas ao pé da cama.
E assim seguia a pequena cidade,
entre a fé e a poeira do caminho,
esperando o futuro chegar nos trilhos
da tão sonhada ferrovia.
Porque o tempo passa devagar no sertão,
mas nunca deixa de caminhar.
E aquelas ruas simples de 1924
já carregavam dentro delas
a semente da cidade que haveria de nascer.