Jose Benedito Rodrigues
Contos, Crônicas
Textos

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Eu fiquei ali parado na praça

No escuro do velho cinema o mundo inteiro silenciou. Só o projetor respirava luz sobre a fumaça fina do salão.

As imagens dançavam na tela, mas meus olhos já não pertenciam ao filme. Pertenciam ao brilho tranquilo que morava no rosto dela.

Lá fora, a praça seguia viva, os carros cruzavam a avenida, os rapazes falavam alto nas esquinas, e a noite espalhava estrelas sobre os telhados da cidade.

Mas ali dentro existíamos apenas nós dois e aquele instante frágil que o tempo não conseguiu apagar.

Nossas mãos se tocaram sem querer.

Foi leve. Quase nada. Um encontro pequeno como o pouso de uma asa.

Mesmo assim, meu coração atravessou décadas.

Ela sorriu no escuro, e eu senti que havia perguntas que nunca precisariam de palavras.

O velho ventilador girava lento, misturando perfume, juventude e sonhos impossíveis.

Na tela, John Travolta dançava. No meu peito, porém, quem dançava era o destino.

E pela primeira vez na vida eu compreendi que certas lembranças não envelhecem.

Ficam escondidas em algum banco de praça,

num ingresso antigo de cinema, numa música distante dos Bee Gees, ou no silêncio de um rapaz tímido que demorou anos para atravessar uma avenida.

Quando o filme terminou, as luzes acenderam devagar como quem não queria acordar a noite.

Saímos juntos.

A praça estava úmida de sereno. As árvores balançavam mansas e a cidade parecia mais bonita do que em qualquer outro sábado.

Caminhamos sem pressa.

Às vezes conversando pouco, às vezes deixando o silêncio falar aquilo que nossos corações ainda não sabiam dizer.

E antes de ir embora, ela me olhou daquele jeito que só existe uma vez na juventude: como quem entrega uma lembrança antes mesmo dela acontecer.

Depois seguiu pela calçada, sumindo devagar sob a luz amarela dos postes.

E eu fiquei ali, parado, na mesma praça e no mesmo banco, vendo a noite levar embora a menina que o tempo jamais conseguiu tirar de mim.

E se não houvesse um amanhã, eu guardaria este instante como quem recolhe a última estrela antes que a noite se despedisse.

Não pediria promessas ao tempo, nem juramentos ao destino. Bastaria vê-la ali, entre os cartazes do cinema e os sonhos de adolescente.

O mundo poderia silenciar os relógios, as ruas poderiam apagar seus passos, mas aquele olhar permaneceria aceso como a luz da tela antes do filme começar.

E se não houvesse um amanhã, eu diria ao vento o que nunca disse: que meu coração aprendeu seu nome muito antes de compreender o amor.

Porque alguns encontros não precisam de futuro para existir. Vivem para sempre na memória de um banco de praça, de uma fila de bilheteria, de um menino tímido e de uma menina de saia azul-escuro que, sem saber, se tornou eterna.

Benedito José Rodrigues
Enviado por Benedito José Rodrigues em 28/05/2026
Alterado em 02/07/2026
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