Jose Benedito Rodrigues
Contos, Crônicas
Textos

A janela

A Janela

Certas músicas marcam nossas vidas e nos remetem a um passado distante. Esta música, certamente, tocou inúmeras vezes na minha mente. Talvez um milhão de vezes. E, até hoje, consigo ouvi-la.

Para mim, ela marcou a minha vida naquele exato momento.

Lembro-me bem. Eram tempos difíceis. Eu, um jovem adolescente sem nenhuma experiência do mundo lá fora, precisava sair de casa, e não havia outro jeito. Era preciso enfrentar as situações desafiadoras que a vida colocava diante de mim naquele momento.

Naquela época, já sem o pai para dar um melhor direcionamento aos filhos, cada um teve que decidir, à sua maneira, o que fazer. E não foi nada fácil para ninguém.

“Da janela, o horizonte, a liberdade de uma estrada eu posso ver.”

Era difícil imaginar um caminho a seguir em meio a tantas dificuldades. Mesmo assim, eu precisava pensar até onde aquela estrada poderia me levar.

Só mais tarde compreendi que era um caminho sem volta. Era preciso seguir em frente, cada vez mais, enquanto as distâncias aumentavam e a vida se encarregava de abrir novos horizontes.

A música dizia que, às vezes, eu pensava até onde aquela estrada poderia levar alguém.

Hoje sei a resposta: ela leva para muito longe, para lugares e situações nunca antes vividos.

Não houve tempo para arrependimentos nem para voltar atrás. Foram muitas as vezes em que pensei em sair de casa, e em muitas delas desisti. Talvez por medo. Talvez pela falta de experiência, de estudo ou de condições para me manter sozinho.

Foi exatamente nesse contexto que, nos anos setenta, eu conheceria a cidade grande.

Naquele dia, depois de doze horas de viagem em um trem de segunda classe da FEPASA, cheguei à Estação da Luz, em São Paulo.

A noite anterior havia sido longa, tensa e angustiante. Quem disse que eu conseguiria dormir? Um turbilhão de pensamentos não me deu trégua por um instante sequer.

Agora era hora de pegar um ônibus rumo ao Itaim Paulista, onde uma nova morada me esperava e uma nova etapa da vida estava prestes a começar.

Ao sair da Estação da Luz, tudo parecia diferente do que eu havia imaginado. A cidade era imensa, barulhenta e apressada. Pessoas caminhavam de um lado para outro sem sequer olhar para quem passava. Para alguém vindo do interior, aquela movimentação causava espanto e, ao mesmo tempo, um certo receio.

Segurando meus poucos pertences, procurei me orientar da melhor forma possível. Cada passo parecia me afastar ainda mais da vida que eu conhecia até então. Eu carregava comigo não apenas uma mala simples, mas também os sonhos, as dúvidas e as preocupações de um jovem que deixava para trás a família, os amigos e os lugares que fizeram parte da sua infância.

A viagem de ônibus até o Itaim Paulista me permitiu observar um pouco daquela cidade que não parava de crescer. Pela janela, vi bairros, avenidas, fábricas e uma quantidade de casas que parecia não ter fim. Era um mundo completamente novo diante dos meus olhos.

Enquanto observava a paisagem urbana, pensava em tudo o que havia ficado para trás. Lembrei-me da minha mãe, dos meus irmãos e das dificuldades que cada um enfrentava naquele momento. A saudade já começava a aparecer antes mesmo que eu tivesse tempo de me acomodar naquela nova realidade.

Quando finalmente cheguei ao destino, fui recebido por parentes que, generosamente, me ofereceram um lugar para ficar. Apesar do cansaço da viagem, eu sabia que aquele seria apenas o começo de uma longa caminhada.

Naquela primeira noite em São Paulo, quase não consegui dormir. O corpo estava exausto, mas a mente continuava inquieta. Eu me perguntava como seria minha vida dali em diante, se conseguiria encontrar trabalho, fazer amigos e construir um futuro melhor.

As respostas ainda estavam escondidas em algum lugar do tempo.

O que eu não sabia era que aquela decisão, tomada em meio às dificuldades e incertezas, mudaria para sempre o rumo da minha história. A estrada que eu contemplava da janela não terminava ali. Na verdade, ela estava apenas começando.

Benedito José Rodrigues
Enviado por Benedito José Rodrigues em 29/05/2026
Alterado em 29/05/2026
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