Na escuridão do velho cinema, o mundo inteiro havia se calado. Apenas o projetor respirava sua luz através da fina fumaça que flutuava pela sala. As imagens dançavam na tela, mas meus olhos já não pertenciam ao filme. Pertenciam à suave luz que habitava o rosto dela. Lá fora, a praça continuava viva. Os carros cruzavam a avenida, os jovens conversavam alto nas esquinas, e a noite espalhava estrelas sobre os telhados da cidade. Mas, ali dentro, existíamos apenas nós dois e aquele instante frágil que o tempo jamais conseguiu apagar. Nossas mãos se tocaram por acaso. Foi um gesto leve. Quase nada. Um encontro tão discreto quanto o bater de asas de um pássaro. E, no entanto, meu coração atravessou décadas. Ela sorriu na escuridão, e eu compreendi que existem perguntas que nunca precisam de palavras. O velho ventilador girava lentamente, misturando perfumes, juventude e sonhos impossíveis. Na tela, John Travolta dançava. Mas, dentro do meu peito, era o destino que ensaiava seus primeiros passos. Pela primeira vez em minha vida, compreendi que certas lembranças nunca envelhecem. Elas permanecem escondidas em um banco de praça, em um velho ingresso de cinema, em uma melodia distante dos Bee Gees ou no silêncio de um rapaz tímido que levou anos para criar coragem de atravessar uma avenida. Quando o filme terminou, as luzes se acenderam suavemente, como se não quisessem despertar a noite. Saímos juntos. A praça estava úmida pelo orvalho. As árvores balançavam serenamente e a cidade parecia mais bonita do que qualquer outro sábado. Caminhávamos sem pressa. Às vezes falávamos pouco; outras vezes deixávamos que o silêncio dissesse aquilo que nossos corações ainda não sabiam expressar. Antes de partir, ela me olhou daquele jeito que só existe uma única vez na juventude: como se já me entregasse uma lembrança antes mesmo que ela nascesse. Depois afastou-se lentamente pela calçada, desaparecendo sob a luz dourada dos postes. E eu fiquei ali, imóvel, naquela praça, ao lado daquele velho banco, vendo a noite levar embora aquela que o tempo jamais conseguiu arrancar do meu coração. Os anos passaram com a discrição das estações. A praça mudou de rosto. O velho cinema fechou as portas. Os cartazes desapareceram das vitrines, o projetor se apagou para sempre e as poltronas de veludo foram cobertas pela poeira. Mesmo assim, toda vez que eu atravessava aquela avenida, parecia ouvir, trazido pelo vento, o murmúrio de uma canção dos Bee Gees. Então eu diminuía o passo. Olhava para o banco, para as árvores e para os postes, como se cada um deles ainda guardasse um fragmento daquela noite. A cidade envelheceu. Eu também. Os cabelos perderam a cor da juventude. As mãos ganharam as marcas do tempo. Mas certas lembranças permanecem mais jovens do que aqueles que as carregam. Numa tarde de outono, levado por uma nostalgia que já não sabia explicar, voltei àquela praça. O sol descia lentamente atrás dos prédios, envolvendo as fachadas numa luz dourada que lembrava os antigos filmes. Sentei-me no mesmo banco. Ao meu redor, crianças riam, casais caminhavam de mãos dadas e pombos levantavam voo ao menor ruído. A vida continuava, fiel a si mesma. Fechei os olhos. Por um instante, o tempo recuou. Ouvi o ronco suave do velho projetor. Vi novamente as poltronas vermelhas. Senti o perfume discreto que ela usava naquela noite. Quando abri os olhos, pensei ver uma jovem atravessando a praça. Ela vestia uma saia azul-marinho. Meu coração hesitou. Eu sabia, porém, que não era ela. Os anos não devolvem as pessoas àqueles que as esperam. Eles apenas tornam as lembranças mais luminosas. Sorri sem perceber. Há ausências que deixam de doer para se transformarem em uma doce companhia. Compreendi então que nunca havia realmente procurado reencontrá-la. Eu procurava apenas reencontrar aquele rapaz que eu era quando o olhar dela encontrou o meu. Porque, no fundo, passamos a vida voltando aos lugares onde nosso coração começou a bater de um jeito diferente. E deixei a praça ao cair da tarde. As primeiras estrelas já apareciam no céu. Olhei para trás uma última vez. O banco estava vazio. Mas nunca me pareceu tão cheio de presença. Talvez porque certos amores não precisem de reencontros nem de explicações. Eles se tornam uma luz silenciosa que nos acompanha até o fim da caminhada. E, quando a noite envolveu a cidade, compreendi enfim que nada do que é amado com sinceridade desaparece por completo. Apenas muda de morada. Um dia habita um olhar. Depois uma canção. Depois uma velha praça. E, por fim, o coração de quem se lembra.