Jose Benedito Rodrigues
Contos, Crônicas
Textos

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Lembranças da infância querida, que os anos não trazem de volta. Mas que o coração, teimosamente, se recusa a esquecer. Era tudo tão simples. A cidade era pequena, e talvez por isso mesmo a vida tivesse um sabor diferente. Todo mundo conhecia todo mundo. Sabíamos quem morava em cada casa, quem tinha chegado de viagem, quem estava doente, quem havia conseguido um emprego novo e até quem estava preparando uma festa. Não existiam os meios de comunicação que temos hoje. Não havia internet, redes sociais ou mensagens instantâneas. Mesmo assim, as notícias corriam depressa. Às vezes, bastava alguém contar uma novidade na esquina para, poucas horas depois, a cidade inteira já saber. E foi assim que aconteceu quando chegou a Maria Fumaça. Para nós, crianças, aquilo parecia um acontecimento extraordinário. O trem não era apenas um meio de transporte. Era uma atração. Era barulho, fumaça, movimento e, sobretudo, uma novidade que despertava a curiosidade de todos. A chegada da Maria Fumaça foi uma verdadeira festa. As autoridades estavam presentes. A banda de música tocava sem parar, enchendo o ambiente com aqueles sons que pareciam anunciar que alguma coisa importante estava acontecendo. As pessoas saíam de suas casas e caminhavam em direção à estação. Famílias inteiras queriam ver de perto aquele momento. Nós, crianças, ficávamos encantados. Queríamos chegar mais perto, observar a locomotiva, ouvir o apito e sentir aquela emoção que somente uma novidade daquele tamanho poderia provocar. Lembro-me da fumaça subindo e se espalhando pelo céu. O som do trem se misturava ao da banda de música e às vozes das pessoas. Era como se a cidade inteira tivesse parado para assistir. Hoje, talvez um acontecimento como aquele pareça pequeno. Mas para nós não era. Era enorme. Era histórico. Era motivo de orgulho. A cidade parecia estar recebendo uma visita importante. E nós estávamos ali, com nossos olhos de criança, tentando guardar cada detalhe. Não sabíamos que, muitos anos depois, seriam justamente essas pequenas coisas que se tornariam grandes lembranças. A Maria Fumaça passou. A música terminou. As autoridades foram embora. As pessoas voltaram para suas casas. A cidade voltou à sua rotina. Mas alguma coisa havia ficado. Ficou dentro de nós. Quando penso naquela época, consigo quase ouvir novamente a banda tocando. Consigo imaginar a multidão reunida, as crianças correndo e os adultos comentando sobre a novidade. E percebo como éramos felizes sem saber. Não precisávamos de grandes acontecimentos todos os dias. Uma chegada de trem era suficiente para transformar uma tarde comum em um dia inesquecível. Talvez essa seja uma das maiores riquezas da infância: a capacidade de transformar coisas simples em acontecimentos extraordinários. Hoje temos tantas facilidades, tantas notícias, tantas imagens e tantas novidades que chegam a todo instante. Naquele tempo, esperávamos. Esperávamos a chegada do trem. Esperávamos uma festa. Esperávamos o domingo. Esperávamos as férias. E talvez justamente porque esperávamos, aprendíamos a valorizar. A vida tinha outro ritmo. Mais lento. Mais próximo. Mais humano. E quando olho para trás, percebo que aquela pequena cidade não era pequena para nós. Ela era o nosso mundo. Ali estavam nossas escolas, nossas ruas, nossos amigos, nossas brincadeiras, nossas famílias e nossos primeiros sonhos. Ali estava a nossa infância. Uma infância querida que os anos não trazem de volta, mas que permanece viva nas lembranças de quem teve a felicidade de vivê-la. Eu, quando ouvia o apito do trem, saía em disparada rumo à estação. Não importava onde estivesse ou o que estivesse fazendo. Bastava ouvir aquele som ao longe para que meu coração se enchesse de uma alegria difícil de explicar. Era como se o apito fosse um chamado. Eu corria pelas ruas, muitas vezes sem sequer pensar no caminho. Queria chegar antes que o trem aparecesse. Não queria perder nenhum instante daquela chegada. Quando finalmente avistava a Maria Fumaça, era uma emoção enorme. A locomotiva vinha soltando fumaça, fazendo aquele barulho característico, e o apito parecia ecoar por toda a cidade. Eu ficava olhando, encantado. Gostava de ver o trem chegando, diminuindo a velocidade e finalmente parando na estação. Depois vinha a parte que eu também adorava: esperar pela partida. Parecia que eu queria acompanhar o trem até o último segundo. Quando ele começava a se movimentar novamente, eu observava enquanto os vagões iam passando diante dos meus olhos. A Maria Fumaça ganhava velocidade, a fumaça ficava para trás e, pouco a pouco, o trem desaparecia na distância. Eu permanecia ali por mais alguns instantes. Talvez esperando outro apito. Talvez esperando que ele voltasse. Hoje, tantos anos depois, ainda consigo ouvir aquele som dentro da minha memória. É impressionante como certas coisas permanecem. O tempo leva as pessoas, muda as casas, transforma as ruas e modifica completamente as cidades. Mas não consegue apagar determinadas lembranças. O apito daquele trem continua existindo dentro de mim. E, quando me lembro dele, volto a ser aquele menino de oito anos que corria para a estação, cheio de curiosidade e alegria, apenas para ver o trem chegar e partir. Naquele tempo, eu não sabia que um dia sentiria saudade daquele som. Não sabia que a Maria Fumaça se tornaria parte das minhas lembranças mais queridas. Eu apenas corria. Corria porque era criança. Corria porque queria ver o trem. Corria porque a vida, naquele tempo, era simples. E talvez seja essa a beleza das lembranças: elas nos devolvem, por alguns instantes, aquilo que o tempo levou.

Basta fechar os olhos. E o apito toca novamente.

Benedito José Rodrigues
Enviado por Benedito José Rodrigues em 02/09/2026
Alterado em 02/09/2026
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