
Os meus oito anos - A minha infância
Lembranças da infância querida que os anos não trazem de volta.
Eu era um garoto, tinha uns oito anos. Minha paixão era brincar e estudar. Eu tinha muitos colegas na escola e em toda a vizinhança do bairro onde morava naquela época. Sabia o nome de cada um dos colegas e sabia onde cada um morava.
Naquele tempo, parecia que o mundo era muito maior do que é hoje. Uma simples caminhada pelas ruas do bairro podia se transformar em uma verdadeira aventura.
Bastava sair de casa para encontrar um amigo, ouvir alguém chamar pelo nosso nome e, poucos minutos depois, já estávamos todos reunidos para mais uma brincadeira.
Não existiam celulares, computadores ou tantas coisas que hoje fazem parte da vida das crianças. Nossa diversão estava nas ruas, nas calçadas, nos quintais e, principalmente, na companhia uns dos outros.
Havia uma liberdade que hoje parece quase impossível de explicar. Depois da escola, eu chegava em casa, deixava os cadernos em algum lugar e logo queria sair. Minha preocupação era saber quem já estava na rua. Às vezes, bastava ouvir as vozes das crianças brincando para sentir aquela vontade irresistível de participar.
As brincadeiras eram simples, mas tinham um valor enorme. Uma bola podia reunir a turma inteira. Um pedaço de madeira podia virar um brinquedo. Uma bicicleta podia nos levar para lugares que, aos nossos olhos, pareciam distantes e misteriosos.
E havia também as tardes compridas. O sol parecia demorar muito mais para desaparecer. Tínhamos a impressão de que o dia nunca terminaria. Brincávamos até alguém aparecer na porta de casa e chamar: — Já está na hora de entrar! Era difícil obedecer. Queríamos aproveitar mais alguns minutos, como se soubéssemos, mesmo sem compreender, que aqueles momentos eram especiais.
A escola também fazia parte daquela felicidade. Eu gostava de estudar e gostava dos meus colegas. Cada sala de aula tinha suas histórias, seus personagens e suas pequenas aventuras. Lembro-me de como conhecíamos uns aos outros. Sabíamos quem era mais engraçado, quem gostava de jogar bola, quem era mais estudioso, quem gostava de fazer alguma travessura.
Éramos crianças e não tínhamos vergonha de ser crianças. Não precisávamos fingir que éramos adultos. Talvez essa seja uma das coisas que mais sinto falta quando penso naquele tempo. A infância tinha uma maneira própria de enxergar o mundo. Uma coisa pequena podia adquirir uma importância enorme. Uma visita à casa de um amigo era um acontecimento. Um brinquedo novo era motivo de alegria. Uma festa de aniversário era esperada durante dias. E quando chegava o domingo, havia uma sensação diferente no ar.
As famílias reunidas, as crianças brincando, os adultos conversando. As casas pareciam mais cheias de vida. Havia vizinhos que conhecíamos pelo nome, pessoas que faziam parte da nossa rotina e que, de alguma maneira, também faziam parte da nossa história.
Hoje, muitos desses rostos já não estão por perto. Alguns amigos seguiram outros caminhos. Outros foram morar longe. Alguns talvez tenham se tornado pessoas completamente diferentes daquelas crianças que conheci. E existem aqueles que ficaram apenas na lembrança.
É curioso como o tempo transforma tudo. As ruas continuam existindo, mas parecem menores. As casas mudaram. Algumas foram demolidas. Outras receberam novas famílias. E nós, que um dia corríamos por aquelas ruas sem pensar no amanhã, crescemos.
A vida nos levou para outros lugares. Vieram as responsabilidades, o trabalho, as preocupações, os sonhos, as perdas e as conquistas. Vieram os anos, um depois do outro, quase sem percebermos. E quando nos damos conta, aquela infância ficou para trás. Mas será que ficou mesmo?
Eu acredito que não. Ela continua vivendo dentro de nós. Está escondida em uma música que ouvimos por acaso. Em uma fotografia antiga. No cheiro de uma comida que alguém preparava em nossa casa. Em uma rua que atravessamos depois de muitos anos. No nome de um amigo que alguém menciona. De repente, voltamos a ser aquele menino de oito anos. Por alguns instantes, o tempo desaparece. E conseguimos enxergar novamente as ruas do bairro, ouvir as vozes dos amigos e sentir aquela alegria simples de quem ainda não conhecia as dificuldades da vida. É por isso que gosto tanto de recordar. Não para querer voltar ao passado, porque sei que isso é impossível. Recordo para agradecer.
Agradecer por ter vivido. Por ter brincado. Por ter estudado. Por ter feito amigos. Por ter conhecido pessoas que, mesmo depois de tantos anos, continuam fazendo parte da minha história.
Talvez a infância seja uma espécie de lugar que carregamos conosco. Um lugar onde o tempo não consegue entrar completamente. Um lugar onde ainda existe aquele menino. Ele continua correndo pelas ruas, chamando os amigos, voltando para casa quando o sol começa a desaparecer.
E talvez seja justamente isso que a memória faz conosco: ela nos permite visitar novamente aquilo que a vida levou.
Benedito José Rodrigues